Há uma lenda rabínica sobre Moisés que trabalhou como pastor de ovelhas. Um dia, uma das ovelhas se perdeu e ele foi procurá-la. Quando a encontrou, percebeu que ela havia se desgarrado do rebanho por estar sedenta. Com muita doçura, colocou-a, então, no colo e levou-a de volta. Foi aí que Deus, perce-bendo a compaixão com que Moisés lidava com a ovelha, decidiu revelar-Se a ele e convocá-lo para a liderança do povo hebreu. Na parábola da ovelha perdida na versão dos evangelhos (Lc 15,4-6; Mt 18,12-14), a mensagem é a alegria divina pela recuperação de um pecador que se arrepende, graças à misericórdia do pastor; que não só foi atrás da ovelha, mas, quando a encontrou, em vez de castigá-la por se ter perdido do rebanho, a jogou nos ombros e a levou para casa.
O discurso é bonito: diz-se que a Igreja está ao serviço da humanidade, não existe para si mesma, mas para servir. Porém o que acontece na prática? Na prática, muitas vezes não se observam os serviços que se diz prestar. Ou nós nem sabemos o que é “isso” de ovelha perdida; não é só uma…; mas a proporção toca, por vezes, a inversão total da parábola evangélica; e “nós” ficamos no “comodismo” da fé a alimentar o consumismo de “católicos de no-me”, que querem lá saber o que se “diz ser melhor”; e, muito mais grave, nem precisam da Comunidade a que dizem pertencer. Ou, então, a “ovelha perdida” não está “nem aí” para esse discurso… Mas aqui quem poderá esperar educação, respeito, cabeça fria, de quem está “perdido”, em situação de “perdição parcial ou total fundo do poço”… e sim esperar “saliência”, ignorância religiosa profunda e até a falta da mais elementar educação? Afinal quem está ou é o “perdido”, no sentido evangélico de “desgarrado”, no meio deste mundo magnífico à espera da Boa Nova!? É preciso abandonar as queixas intermináveis, “os esquemas feitos”; o choro sobre o leite derramado não serve a mais ninguém. Ousadia e audácia são dons do Espírito Santo, é necessário inovar e arriscar-se evangelicamente.
Ando devagar contra a corrente. Percebo a intensidade das palavras de Giorgio Paleari: “Missão é encontro das pessoas no caminho e não na segurança de uma casa. O missionário, nas trilhas de Jesus, rompe qualquer tipo de fronteira e passa todas as fronteiras, sobretudo institucionais. Não veste a roupa do já sabido e do já conhecido. Há um impulso que empurra os missionários a nunca se adaptarem a nenhum lugar e a nenhuma situação. Eles subvertem o estabelecido e qualquer casa lhes é estreita e limitada”.
A ovelha perdida espera a nossa chegada… Aparece “inesperadamente” dentro da nossa casa, mas é a excepção. A ovelha perdida “facilita” – se a nossa pastoral estiver em função dela também, repito, também -, uma profunda mudança na visão e na consideração de certas opiniões, hábitos e comportamentos, pessoais e sociais, aceites como “normais” e “naturais”, que são verdadeiramente nefastos e escravizam o ser humano, na sua aparência de bem querer e fazer bem. Sermos claros, sinceros, amigos, mas não amigos a qualquer preço: saber que temos inimigos irredutíveis, os fariseus de todos os tempos.
(Esta crónica retoma o texto publicado
no dia 15 de Maio)
