Tome lá um cêntimo e não se queixe!…

Em cima da linha Todos nós nos habituámos a ir à missa, tranquilamente, tão tranquilamente que até podemos chegar uns minutos, às vezes largos minutos, depois de a missa começar. (Naturalmente que se supõe que ela começa a horas, porque, a ser de outra forma, o assunto muda de figura.) Chegamos tarde, passamos os olhos por quem está e vamos aguardando paciente ou impacientemente que o tempo passe depressa. Quantas vezes olhamos para o relógio à espera do “Vamos em paz e o Senhor nos acompanhe.”?

A missa continua a ser, para muitos dos intervenientes, algo que começa e acaba ali, na igreja. Mesmo para gente mais consciente e convicta parece difícil ser de outra maneira. Há um cântico das missas dos mais novos que diz que “a missa não termina aqui na igreja”. Na verdade, verificamos que, em muitos aspectos, nós não conseguimos trazer a missa para fora da igreja. Quero abordar concretamente um aspecto da questão social da missa. No Congresso Eucarístico Diocesano foi tratado, e com muita veemência, a repercussão social da missa em diversas vertentes. Daí que a minha reflexão venha num destes sentidos.

Em todas as celebrações da Eucaristia, há um momento chamado ofertório, em que somos convidados a partilhar os nossos bens com a Igreja, numa atitude de fraternidade e de gratidão ao Senhor, Ele que nos vai garantindo, com o nosso esforço e trabalho sério, o pão de cada dia. Esta partilha de bens era destinada, à maneira da primitiva Igreja, a pôr em comum algo daquilo que podíamos, para ajudar os mais pobres e necessitados da comunidade. Essa partilha era de tal ordem e abundância na Igreja nascente que, rápida e necessariamente, se estabeleceu que fossem escolhidos homens para realizar o serviço da distribuição de bens aos irmãos: os diáconos. A Igreja celebrante era um Igreja comprometida na área social: quem tem é obrigado, por princípios de justiça, a repartir com quem não tem. Não se trata apenas de fazer caridade. Trata-se de justiça e justiça a sério, porque o culto só é verdadeiro quando se põe em prática a justiça, e a Igreja não é uma associação de caridade.

O que vemos hoje?

Mesmo olhando muito superficialmente, damos conta de que o ofertório não passa de um miserável peditório, onde se recebem, não digo pequenas ofertas pecuniárias, mas as mais pequenas moedas em circulação, a par de tantas outras já fora de circulação. Numa atitude que, a brincar, chamo de racismo primário, jogamos para o cesto tudo quanto é escuro. Essas moedas, que nem os garotos querem, nós as damos, tentando descarregar um peso de consciência, que contrasta com a leveza das moedas. Eu sei que também isso é dinheiro e que, muitas vezes, essas pequenas vêm juntas com outras; porém, não se compreende que as dádivas de muitas comunidades (?) não cheguem sequer para pagar a luz da igreja, quando deviam chegar e sobrar abundantemente para a tal acção social da Igreja, na satisfação de necessidades básicas de membros da mesma Igreja, ou até, porque não, da sociedade? E se toda a gente desse alguma coisa…; mas há muitos braços curtos que não chegam ao cesto! …

Num tempo em que a mesma Igreja esbanja milhares e milhares de euros em espectáculos levados a cabo pelas festas religiosas, enchendo a carteira a “artistas” de fuga aos impostos, dinheiro que tão difícil é de arranjar e tão fácil de desbaratar, parece urgente mudar de atitude. Eu até reconheço o nosso elevado grau de solidariedade em tantas circunstâncias ao longo do ano, e a nossa sensibilidade à miséria dos outros! Porém, entendo que a caridade/solidariedade deveria ser apenas um extra para situações extraordinárias, enquanto que a justiça distributiva, essa tem de ser o dia-a-dia.

Uma coisa é dar uma esmola, outra é partilhar com os outros. Desculpar-nos com a ideia de que hoje não há pobres, ou que muitos ditos pobres não são realmente pobres, pode ser uma fuga ao compromisso cristão da fé e ao sentido de comunhão da Eucaristia.