Questões Sociais 1. Num dos primeiros governos constitucionais, o Dr. Mário Soares, então primeiro-ministro, afirmou a necessidade de “meter o socialismo na gaveta”, para a superação das dificuldades financeiras verificadas na altura. A frase foi bastante criticada e, segundo o autor, foi mal interpretada.
Hoje em dia, com o aparecimento de nova crise, a mesma frase volta a ter actualidade e, uma vez mais, a respectiva tese pode ser utilizada para se sacrificar o domínio social ao económico e ao financeiro.
Ora, o verdadeiro socialismo, desde a sua origem, encontra-se vocacionado especialmente para a superação de dificuldades, através da união entre as pessoas. Por isso, quanto maiores são as dificuldades mais se deve desengavetar e desenvolver o socialismo.
Dado, porém, que não é fácil caracterizar hoje o socialismo, talvez seja preferível falarmos de socialização, no sentido consagrado na Constituição Pastoral “Gaudium et Spes” (nºs 6, 25, 42 e 75) e noutros documentos da doutrina social da Igreja (DSI). Aliás, a socialização contém todos os aspectos positivos do socialismo e vai além dele, enquanto, pelo contrário, a inversa não é verdadeira, pelo menos na prática e na linguagem corrente.
2. Desengavetar e desenvolver a socialização implica o desenvolvimento humano em todos os patamares do relacionamento.
O primeiro patamar corresponde a cada pessoa e família. Situa-se aqui todo o esforço pessoal e familiar para se evitarem e superarem as situações de carência. O trabalho, a iniciativa económica, bem como o estudo, a formação e a procura, em cada momento, dos melhores caminhos possíveis integram-se neste patamar.
O segundo patamar corresponde à solidariedade e ao associativismo. Através destes dinamismos se complementa e aproveita o esforço pessoal e familiar.Também se processa, nesta instância, uma parte significa-tiva das relações com o Estado e com outras entidades.
A DSI utiliza a expressão “corpos intermédios” para designar as associações e outras instituições.
O terceiro patamar corresponde às empresas privadas e respectivas associações. Sem o seu concurso, as pessoas e as famílias não desenvolveriam algumas dimensões funda-mentais próprias de cada ser humano. Perder-se-ia também a via por excelência de gerar riqueza e de criar condições propiciadoras do desenvolvimento humano integral.
O quarto patamar corresponde ao Estado. Incumbe-lhe fundamentalmente reconhecer e facilitar a vida e o funcionamento dos outros patamares e proporcionar serviços comuns.
