Nada como um déficit

Cíclica crise se instala no Brasil. Velhas palavras desencantam: corrupção e impunidade. Procuro perceber aqui o “caso brasileiro”, parte do invisível Sul, e o lá do “caso português”, na exausta Europa. Plagio e modifico, levemente, uma anedota de Luís Fernando Veríssimo.

“Um publicitário morreu e, como era mau, foi para o Inferno. O Diabo, que todos os dias recebe um print-out com o nome e a profissão de todos os admitidos, mandou que o publicitário fosse retirado do grelhador e levado ao escritório. Queria fazer-lhe uma proposta. Se ele aceitasse, sua carga de castigos diminuiria e teria regalias (ar-condicionado, etc.).

– Qual é a proposta?

– Temos que melhorar a imagem do Inferno – disse o Diabo. – Falam as piores coisas do Inferno. Queremos mudar isso.

– Mas o que é que se pode dizer de bom disto aqui? Nada.

– Por isso é que precisamos de publicidade!

O publicitário topou. Era um desafio. Quis saber algumas coisas que diziam do Inferno e que irritavam o Diabo.

– Bem. Dizem que aqui todos os cozinheiros são ingleses, todos os garçons são italianos, todos os motoristas de táxi são franceses e todos os humoristas são alemães.

– E é verdade? – É.

– Hmmm – disse o publicitário. – Uma das técnicas que podemos usar é a de transformar desvantagem em vantagem. Pegar a coisa pelo outro lado.

Sua cabeça já estava funcionando. Continuou: – Os cozinheiros ingleses, por exemplo. Podemos dizer que a comida é tão ruim que este é o lugar ideal para emagrecer. Além de tudo, já é uma sauna.

– Bom, bom.

– Garçons italianos. Servem a mesa pessimamente. Mas cantam, conversam, discutem. Isto é, ajudam a distrair a atenção da comida inglesa.

– Óptimo.

– Motoristas franceses. São mal-humorados e grosseiros. Isso não estimula o uso do táxi e promove o exercício físico. É económico e saudável. Também provoca indignação generalizada, une o povo e combate a indiferença.

– Muito bom.

– Uma situação que não seria amenizada pelos humoristas. Os humoristas, como se sabe, não têm qualquer função social. Eles só servem para subverter as pessoas, criar uma mentalidade de lassidão e ridículo, quando não de perigosa alienação. Isso não acontece com os humoristas alemães, cuja falta de graça só aumenta a revolta geral, mantendo o povo activo e sério. O alívio cómico é dado pelos garçons italianos.

– Perfeito! – exclamou o Diabo. – Já vi que acertei. Quando podemos começar a campanha?

– Espere um pouquinho – disse o publicitário. – Temos que combinar algumas coisas, antes. Por exemplo: os custos.

– Isto já não é comigo – disse o Diabo. – É com o pessoal da área económica. Você pode tratar com eles. E aproveitar para acertar também o seu contrato. Com isto o Diabo apertou um botão do intercomunicador vermelho que havia sobre a sua mesa e disse: – Dona Henriqueta, diga para o José vir até à minha sala.

– José? – estranhou o publicitário.

– Nosso gerente financeiro. Toda a secção económica é dirigida por portugueses.

Nesse instante o publicitário suspirou, levantou-se e disse:

– Devolve-me por favor ao grelhador…”

O déficit do país é enorme. Qual país? Qual déficit? “Ordem e progresso”. “Temos um palmo de terra para nascer e o mundo inteiro para morrer”. Será que somos o país da Inveja? Por quanto continuar a confundir apetência com competência? Sofro de déficit? “Falta-me dinheiro e tempo!”. Na frase anterior, entre as três palavras, uma é falsa ou quase verdadeira, outra deve ser substituída pela palavra “vontade”. Resolva este enigma barato. Se não fosse padre era publicitário, mas atacado pelo “déficit”, não tenho à mão os livros de Etienne Perot: Le chrétien et l’argent (1994); La séduction de l’argent (1996); em castelhano, Etica Profisional: el discernimiento en la toma de decisiones (2000). Onde está o Sentido quando crianças morrem em razão da macroeco-nomia, enquanto ninguém pratica a verdadeira economia política ?