Na defesa da vida, construindo a paz

Direitos humanos No próximo dia 23 de Outubro, o Brasil vai ser chamado às urnas para se pronunciar, em Referendo nacional, sobre o desarmamento.

Apesar de ser uma realização em território brasileiro, penso que o seu exemplo, e até mesmo as implicações que daí poderão advir, merecem que partilhe algumas reflexões com os leitores do Correio do Vouga. Precisamos de sementes que mostrem que a Paz mundial é possível.

Em primeiro lugar, penso que deve ser valorizada a questão de se ter pensado numa consulta popular sobre um tema tão pertinente. A sociedade brasileira sente, de uma forma cruelmente real, a violência materializada na utilização e comercialização das armas de fogo.

Vale lembrar que, em 2004, no Brasil, 38 mil pessoas foram mortas por armas de fogo, o que corresponde a uma pessoa cada 15 (!) minutos. Isso faz desta nação o país onde mais se morre, e onde mais se mata, por armas de fogo, em todo o mundo. No Brasil, tal como em Portugal, uma das maiores causas de óbitos é a sinistralidade rodoviária. Aqui, o número de mortes por acidentes de trânsito é elevadíssimo – 26% – mas o número de mortes pela violência com armas ainda consegue superar essa percentagem – 30%. São números que reflectem uma realidade que os media não se cansam de espalhar pelo mundo fora. Em qualquer lugar do mundo, falar das grandes metrópoles brasileiras é relacioná-las com os altíssimos índices de violência e de criminalidade!

Em boa hora, então, a sociedade civil brasileira forçou as autoridades políticas à convocação do referendo. Terei que valorizar, aqui, a própria simplicidade da pergunta a ser alvo nesta consulta popular: “O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?” Assim! Uma pergunta clara, concisa e objectiva.

Obviamente, a Igreja Católica no Brasil posicionou-se claramente a favor do voto pelo “Sim”. Basta lermos Mt. 26, 47-56, para entendermos que as palavras de Jesus não nos deixam outra opção: “Todos os que usam a espada, pela espada morrerão!”.

Aliás, foi enorme, em especial nas grandes cidades, a ajuda que as paróquias deram na realização recente de uma Campanha de Desarmamento, durante a qual as pessoas foram convidadas a entregar, livremente, a arma que possuíssem em casa. Perto de um milhão de armas foram entregues. Foi uma pequena (grande) vitória, se pensarmos que as autoridades estimam em 18 milhões de armas de fogo existentes no Brasil, mais de metade das quais são clandestinas.

Contudo, as estatísticas mostram que a Campanha do Desarmamento surtiu efeitos práticos, uma vez que o índice de mortes por armas de fogo diminuiu acentuadamente.

Os méritos destas pequenas acções têm que ser repartidos entre Igrejas, movimentos sociais e a sociedade civil organizada, principalmente através das ONGs. Efectivamente, são estes parceiros que se estão a empenhar na campanha pelo “Sim”. Principalmente ao contri-buírem para o esclarecimento da população. Contrariamente aos mass media, que não estão muito interessados em dar visibilidade a esta campanha.

Provavelmente se o tema fosse outro, mais polémico, mais sensacionalista, as rádios, televisões, as páginas dos jornais, viriam repletas de referências aos factos de campanha. Tal não sucede. E isso, infelizmente, só vem beneficiar as indústrias de armas que, numa clara campanha de desinformação, contam com o silêncio dos media para fazerem a sua propaganda enganosa, aproveitando-se da insegurança das pessoas, para divulgar a (falsa) idéia de que desarmar os cidadãos contribui para que os bandidos cometam crimes com maior facilidade.

Mas, sobre a indústria de armas, poderei voltar, no futuro, a reflectir com os leitores do CV.

Por agora, peço a vossa atenção para as notícias que vos forem chegando sobre esta consulta popular e, obviamente, a vossa oração para que os resultados sejam uma demonstração clara do posicionamento do povo brasileiro: na defesa da Vida, construindo a Paz.