Cuidado de Si 1. Um mal tipicamente setembrino, que afecta muita gente desprevenida, é a «depressão pós-Verão». O trimestre Maio- Junho-Julho, na melhor das hipóteses, foi passado a projectar realisticamente o tempo de férias; mas na maioria – e no pior – dos casos, costumamos sonhar as férias como uma espécie de tempo de redenção de tudo o que não vivemos durante o ano: libertados das amarras da rotina profissional e familiar, sonhamos poder dedicar-nos aos livros que não lemos, aos lugares que não visitámos, à serenidade que não alcançámos, aos afectos que não nutrimos, aos relacionamentos que desleixámos. Projectamos, assim, em Agosto – o mês é uma verdadeira metáfora – a capacidade das férias nos devolverem aquele pedaço de paraíso perdido ao longo do ano. Mas Setembro, quando chega, traz consigo uma dose notável de desilusão aos incautos restauradores de paraísos: os livros foram deixados a meio, os lugares afinal não trouxeram o entusiasmo esperado, a serenidade desaparece assim que se volta ao local de trabalho, os afectos desesperaram por nutrimento e, sobretudo, os relacionamentos, não habituados a vinte e quatro consecutivas on line, entraram numa espécie de espiral de desafeição e ruptura. Chegou o mal setembrino.
2. Eu hei-de plantar uma árvore, agora que me nasceu um filho e que também já publiquei. Um livro, uma árvore, um filho: dizem que é o trio da maturidade! E eu que me sinto tão distante dela! Um filho: há qualquer coisa de misterioso e de imerecido no facto de uma vida frágil e inepta nos ser colocada nos braços para dela cuidarmos. Os movimentos que se fizeram, ainda que motivados pelo amor, são pouco para justificar tamanha oferta. Ou então não. E, nesse caso, a extrema acessibilidade à geração de vida é tão somente um gravoso convite à responsabilidade e ao amor. No início da vida, no meio e no fim.
3. Uma citação longa que vale por si e não precisa de comentário: «Nenhum aspecto que possamos dar a um assunto nos trará tanto proveito como a verdade. Só ela assenta bem. Porque, na maioria dos casos, não estamos onde estamos, mas numa posição falsa. Devido a um desvio da nossa natureza, imaginamos uma situação e colocamo-nos dentro dela, e logo estamos em duas situações ao mesmo tempo, tornando-se duplamente difícil sair delas. Em momentos de lucidez, encaramos apenas os factos, a situação que de facto existe. Dizei o que tendes a dizer, e não o que deveis dizer. Qualquer verdade é melhor que o fingimento […]. Por mais medíocre que seja a vossa vida, enfrentai-a e vivei-a; não a eviteis nem a injurieis. Ela não é tão aborrecida como vós o sois. Quanto mais ricos sois, mais pobre ela parece. Quem busca defeitos, em tudo encontrará defeitos, até no paraíso. Amai a vossa vida, por pobre que seja […] (H.D. Thoreau, Walden ou A vida nos bosques, Antígona, Lisboa, 1999, 355-356).
