Direitos Humanos Por vezes, algumas atitudes extremas podem suscitar, em nós, certa estranheza, principalmente quando elas são tomadas por figuras da hierarquia da nossa Igreja. Passo a explicar: a figura a que me refiro chama-se Dom Frei Luís Cappio, é bispo da diocese de Barra, no estado nordestino da Bahia. Uma figura franzina de um frade franciscano, que tomou a decisão – gigantesca, digna apenas de pessoas com uma craveira extraordinária – de entrar em greve de fome. Uma medida drástica, como forma de protesto contra o autismo das autoridades que se recusam a ouvir os clamores do povo pobre, sofrido e martirizado, do sertão nordestino.
O que está em causa é a transposição das águas do Rio S. Francisco, o maior rio que corre no Nordeste Brasileiro. Um projecto megalómano governamental, que, sob a capa (aparente) de querer levar as águas do São Francisco a algumas regiões semi-áridas do sertão nordestino, nada mais visa do que responder aos grandes interesses económicos do agronegócio, ávidos de começarem a alargar os seus investimentos para novas fronteiras agrícolas.
Dom Frei Luís insurgiu-se, sobretudo, contra todo o processo de transposição, iniciado nos gabinetes dos poderes, sem que tivesse sido dada ao povo a possibilidade efectiva de se pronunciar sobre os impactos que tal projecto terá na vida dos sertanejos, que sobrevivem nas margens do grande rio do Nordeste.
Incapazes de ouvir a voz do povo, os políticos poderosos de Brasília e das capitais nordestinas deram a aprovação e execução do projecto como acto consumado.
Cansado de apelar a que os referidos poderes escutassem o sentimento e a razão do povo, Dom Frei Luís, no Domingo 25 de Setembro, anunciou que, a partir do dia seguinte, ficaria em greve de fome. Para que os gritos do povo pudessem ser ouvidos!
Assim, no dia 26 do mês passado, o bispo franciscano entrou na capela de São Sebastião, no município de Cabrobó, estado de Pernambuco, ribeirinho das margens do S. Francisco, onde iria passar, em oração e atitude de escuta, a sua greve de fome.
Tratou-se, sem dúvida, de um gesto extraordinariamente ousado. Aliás, é tão extraordinário que gerou imenso desconforto, tanto nos políticos como na Igreja.
Como não estamos acostumados a gestos ousados, como este, é claro que os políticos aproveitaram logo para rotular o acontecimento como “vedetismo”. Não é. Na verdade, o protagonista deste facto nem sequer é o bispo, mas o povo. E o gesto, que considero corajoso, é de alguém que sempre esteve ao serviço do povo pobre e que sabe como os pobres pensam, sentem; e como a opinião dos mais simples é sempre desprezada.
Só assim o povo teve relevância e a causa ganhou notoriedade.
O povo teve o protagonismo que lhe é justo e o que pede é que, simplesmente, se repense o projecto e que ele avance só depois da revitalização de um rio que, com as alterações climáticas, está moribundo. Nunca ao sabor dos interesses imediatistas dos influentes empresários agrícolas!
Igualmente não fiquei surpreendido quando a alta hierarquia da Igreja, através da Congregação para os Bispos, exigiu o fim deste “gesto em obediência à Santa Sé”. Espanta-me apenas que a argumentação do Cardeal Battista, prefeito daquela Congregação, tenha assentado na acusação de que aquela forma de protesto seria contra “o preceito divino de não extinguir a vida”.
Quem conhece as formas de resistência pacífica, preconizadas pela grande alma Mahatma Ghandi, sabe que a greve de fome é um dos instrumentos de luta da não-violência. Tão difícil que não se pode abusar deste instrumento de resistência, até porque são necessárias uma grande convicção e uma grande preparação espiritual para levar a cabo tal acção, tão radicalmente corajosa.
Na filosofia de vida cristã, o martírio é dar a vida por Amor à Causa e ao próximo. No caso de Dom Frei Luís, entrar em greve de fome foi correr o risco de perder uma vida, justificada por um bem maior, a precária vida dos milhares de sertanejos ribeirinhos do São Francisco. Com isso, ele devolveu ao seu povo a esperança e mostrou que resistir, hoje, é possível, necessário; e é urgente, como a luta em favor dos mais pobres.
E doar a vida em favor de uma causa tão justa, não pode jamais ser encarado como suicídio. Antes será uma forma de partilha radical com todos aqueles que gritam de fome, que morrem de sede e que nunca são ouvidos.
P.S. Frei Luís terminou a greve de fome a 7 de Outubro, após 11 dias de coragem e da promessa de suspensão do Projecto. O governo comprometeu-se a repensar o Plano de Transposição e a estudá-lo em parceria com os movimentos populares e a sociedade civil ribeirinha do rio São Francisco.
