Jornada para compreender o Laicismo e o Indiferentismo Correio do Vouga – Laicismo e Indiferentismo são a mesma coisa?
Pe. Alexandre Cruz – Não são a mesma ‘coisa’, mas são aspectos de uma mesma realidade. Trata-se da realidade do mundo, do pensamento das sociedades, da compreensão dos valores, do lugar das ideias e das movimentações do pensamento humano, que depois se manifesta em posturas, formas de estar e de compreender a vida, a sociedade e a própria liberdade.
Estando atentos, apercebemo-nos de um certo indiferentismo social, de um “deixar correr”, que vai das coisas mais simples às mais significativas, até à ordem do mundo espiritual. Indiferentismo, será, assim, um modo de estar “não estando”, onde “tanto faz”, numa vida incolor. Numa linha de indiferentismo, as opções retardam, o pensar a vida na sua grandeza dignificante esbate-se, o objectivo e o ideal perdem-se. Este é um dos gravíssimos problemas da sociedade actual; e as instâncias que caminham na área social ou da cultura sentem diariamente que a mensagem não passa, pois uma indiferença perturbante vai alastrando.
O laicismo exige uma compreensão profunda das suas raízes. A Jornada também pretende isso mesmo: revisitar estes conceitos como atitudes de vida.
Existe uma laicidade do crente que é pura, provinda da secularização. Trata-se do reconhecimento do valor das realidades terrestres e de que tudo quanto é bom contém sementes do Verbo; e não é “tirar o terreno da Igreja” – temos de redescobrir isto para conseguir falar com o mundo! Já o laicismo contém em si um carácter turvo, ideológico, perturbador, intencional, asfixiante da pureza dos valores e virtudes.
Como podem o laicismo e o indiferentismo ser “défice cultural”?
Precisamente porque ambas as realidades que nos propomos abordar não têm, por diferentes motivos, a capacidade de ter a visão de conjunto. “Défice” significa que falta algo, que não atinge a totalidade, que fica aquém…
Ora o indiferentismo, pela demissão, e o laicismo, pela intenção, impedem o acesso ao sentido mais profundo da vida, que só se atinge nos caminhos de uma realização humana, onde o invisível espiritual ilumina o visível real.
E o que falta? Porventura, faltará essencialmente cultura, cultura, cultura… Nas sociedades com menos cultura (o que não consiste somente em saber ler, escrever e contar, mas em sensibilidade), é que existe mais permeabilidade às propostas aliciantes mas enganadoras…
São fenómenos crescentes em Portugal?
Nesta questão tão englobante, que exige a compreensão de séculos de história, particularmente as movimentações do século XX, será de sublinhar precisamente a palavra chave anterior, “cultura”. Como vamos de cultura em Portugal? As milhentas associações culturais inactivas? A dificuldade crescente em promover a participação no colectivo? Que visões das nossas raízes? Que preconceitos? Que anti-clericalismos, que bloqueiam novas vias? Que silêncios, às vezes de “demissão”, para “irmos andando” também nós nesta relação entre as Religiões e a Sociedade, a Igreja e o Estado? Que medos impedem por vezes um “profetismo inalienável”, defensor claro de questões de dignidade humana?…
Claro que há muito de bom, de parceria, sendo importante um primar pelo equilíbrio; todavia há uma cultura que se asfixia, por um lado, na indiferença do colectivo (olhemos para as novas gerações; não estamos a conseguir transmitir o razoável), por outro, em linhas demagógicas e oportunistas, chegadas à realidade mais alta sócio-política. O laicismo (como movimento der-rubador de referências patrimoniais comuns como a família, a pessoa, a vida…) vai fazendo caminhos (melhor, auto-estradas!) cada vez mais amplos. É como uma meia dúzia de pessoas a gritar diante de uma multidão que se cala, dando a ideia de que essa meia dúzia cria a opinião dominante. As novas gerações vão, hoje, por quem grita mais alto, pouco importando o conteúdo que se grita!
O que se pode esperar desta jornada?
Espera-se, antes de mais, que seja um fórum aberto sobre estas questões. A jornada, aberta a todos, é organizada por vários organismos da diocese de Aveiro e contou com uma parceria alargada de sensibilização. Espera-se uma participação interessada no debate aberto sobre questões da ordem do dia tão significativas para todos, pois não podemos transmitir sem (re)conhecer o ambiente em que transmitimos. Pretende-se iniciar uma reflexão que continue depois em grupos, movimentos, comissões. Nesse sentido, será elaborado um comunicado de conclusões para ser enviado aos participantes e à imprensa.
Esperamos ainda que corresponda a múltiplas vontades comuns, traga um sinal de sensibilização para estas questões da sociedade actual, de acordo com o próprio ideal do Triénio Diocesano de Pastoral: A Igreja ao Serviço das Pessoas e da Sociedade. A jornada ajudará, certa-mente, a compreender mais um pouco a nossa sociedade, com a finalidade de sermos Igreja que sabe que terreno calca. Só neste realismo de uma nova consciência, todo o horizonte profético da Igreja se renovará.
J.P.F.
