Pe José Camões, da Vigararia para os Leigos e Movimentos Laicais “Os movimentos são espaços privilegiados para vincar a consciência do compromisso cristão no mundo onde se está”, afirma Pe José Camões, responsável pela Vigararia para os Leigos e Movimentos Laicais. Esta estrutura diocesana existe há seis anos e congrega cristãos representantes de grupos e movimentos apostólicos e outros que poderíamos dizer “independentes”. O objetivo da Vigararia é “ajudar a dar consciência aos leigos da sua missão como cristãos no mundo e na sua inserção nos locais concretos de vida”. Um dos seus trabalhos fundamentais é a interligação entre grupos e movimentos laicais.
Num ano em que a diocese de Aveiro tem como lema pastoral “a Igreja ao serviço das pessoas e da sociedade”, o Correio do Vouga divulga alguns desses espaços de compromisso laical através de entrevistas aos principais responsáveis pelos movimentos. A abrir esta série de pequenas entrevistas, falamos com o responsável pela Vigararia, Pe José Camões Rodrigues Sobral, que é também pároco de Águeda.
Correio do Vouga – Escreveu no boletim “Criar Laços” (órgão de ligação dos movimentos da diocese de Aveiro) , citando Vittorio Messori, que “o nosso verdadeiro problema não é sermos minoritários, mas termos chegado a ser marginais, irrelevantes. É o que está a acontecer com os movimentos cristãos?
Pe José Camões – Alguns movimentos não estão rigorosamente nada a ser irrelevantes. Estão a ser sal. Outros, na minha opinião, são ainda – e muito – movimentos de consolo espiritual. Acho um bocado pobre para a dimensão que eles poderiam e deveriam ter: a consciência desta presença, deste ser sal e fermento, e não inutilidade.
O que se poderia fazer para despertar a consciência?
Isto vai-se reduzindo em número, mas vai-se concentrando. Quem vai percebendo [a identidade cristã] vai agarrando. Quem anda por ver andar os outros, faz as franjas confor-me o apetite. O meu sentir desde há muitos anos é que nós, cristãos, católicos, temos de ter consciência de sermos uma minoria. Os números oficiais não nos permitem isso, mas a nossa teimosia tem de ser essa: entendermos que, para sermos significantes, temos de ser uma minoria qualificada – e qualificada pelo Evangelho. Por isso, é oportuno dar uma força grande aos movimentos de consciencialização da fé e de intervenção na história, a todos os níveis, desde os que são associações temáticas, profissionais, até aos movimentos de intervenção do jeito da Acção Católica, com as adaptações todas que é necessário fazer.
O que é que um cristão pode encontrar num movimento? Qual a vantagem de estar em ou pertencer a um movimento?
No movimento temos a possibilidade de fazer uma experiência que é sensível a todos nós: a da amizade, da proximidade, do contrário do anonimato, do empenhamento, de uma mística que envolve mais as pessoas, de um compromisso que é mais formalizado, que é mais interpelante, ao contrário do que pode acontecer numa paróquia. De facto, tudo é de todos, mas por vezes falta qualquer coisa que congregue. O que fazemos na paróquia não é tão congregador quanto isso, congregador no sentido do compromisso, de levar as pessoas a assumir a sua fé. E assumir é da porta da igreja para fora. O movimento tem um suporte humano e espiritual que é extremamente importante.
Outro elemento fundamental que acontece nos movimentos e não acontece no geral é a formação. Quando a gente sabe o que quer, dá o corpo ao manifesto.
As paróquias aceitam a diversidade de carismas dos movimentos ou receiam que os movimentos lhe retirem os cristãos mais empenhados?
Se calhar, nós, os padres, temos alguma alergia aos movimentos. Mas eu penso exactamente o contrário. Os movimentos não retiram ninguém das necessidades paroquiais. O movimento tem o seu carisma, o seu modo de estar, mas isso é uma forma de pertença à comunidade. Não estou a dizer que os movimentos têm de ter uma dimensão paroquial. Não têm. A dimensão eclesial é que lhes dá consciência de estarem no lugar onde devem estar. Os movimentos em vez de virem perturbar a vida da paróquia, enriquecem-na.
Como tem sido o trabalho da Vigararia?
A Vigararia nasceu há seis anos, por vontade do nosso bispo, para ajudar a dar consciência aos leigos da sua missão como cristãos no mundo e da sua inserção nos locais concretos da vida. O trabalho tem sido basicamente com movimentos, desde os saídos da Acção Católica a outros como Schoenstatt, na sua diversidade.
Em primeiro lugar, procurámos criar laços entre movimentos. Há o risco de um certo partidarismo que os mata. Tem vindo a ser objecto da nossa preocupação entrelaçar movimentos, criar coesão. Fizemos um painel de movimentos, a que chamamos “Criar Laços” e daí nasceu o boletim com o mesmo nome, que vai fazendo ligação entre pessoas e movimentos.
Momento importante é a Vigília de Cristo Rei…
Sim, seguindo a tradição dos movimentos da Acção Católica, realizamos uma Vigília de Cristo Rei. A dinâmica deste encontro é a da velha linguagem “dos militantes de Cristo Rei” – assim se cantava. O encontro serve para vincar a nossa união e fortalecer-nos à volta da imagem do Reino, pelo qual lutamos. Além disso, temos feito um ou outro encontro, até de convívio, e temos motivado a participação dos movimentos no Dia da Igreja Diocesana. Agora estamos a pensar num fórum de movimentos sobre a “Gaudium et Spes” [documento saído do II Concílio do Vaticano sobre a presença da Igreja e dos cristãos na sociedade], que faz 40 anos.
