“Informaram-nos que o bem vai ganhar”

“Informaram-nos que o bem vai ganhar. O jogo está viciado. Eles não sabem que vão perder. Mas vão”. Estas palavras foram proferidas por Carlos Ramalheira, perante quatro dezenas de pessoas, no segundo encontro do ciclo sobre a Gaudium et Spes que a paróquia da Glória, Aveiro, tem vindo a promover. Ditas fora do contexto, podem parecer estranhas. Precisam de ser descodificadas. Falava-se da família, a partir do documento do II Concílio do Vaticano, a Gaudium et Spes (GS), que fez há pouco quarenta anos.

Essa constituição pastoral – assim se designa na terminologia da Igreja: “constituição” remete para princípios doutrinais; “pastoral” remete para a realidade da vida das pessoas – representou uma forma nova de a Igreja se situar no mundo, uma passagem oficial das atitudes de condenação para as de diálogo, um sentir as alegrias e angústias da humanidade como sendo as dos discípulos de Cristo, um olhar solidário e construtivo para com a sociedade humana, enfim, uma postura nova alicerçada nos valores de sempre.

No que respeita à família, como expôs Ana Maria Ramalheira, a GS reafirmou-a como “fundamento da sociedade”, lembrou o vínculo sagrado entre esposos, os filhos como dom do matrimónio, a união de amor que faz com que o casamento seja uma “aliança indissolúvel” mesmo que não haja filhos. Na visão da Igreja reflectida na GS, o amor entre esposos “é um testemunho do mistério de Deus que se revelou ao mundo”. Maior dignidade, sobre a família, não podia ser afirmada.

Porém, há um reverso da medalha, que dá uma “notável actualidade” à GS, como foi afirmado por ambos os elementos do casal de Coimbra. As “ideias relativizadoras” que afectam hoje a família foram já enunciadas há 40 anos. De então para cá, só ganharam mais força. Tanta, que parece que a “batalha da família” está destinada ao fracasso. A GS referia a “epidemia do divórcio”, o amor livre e “outras deformações”, as “práticas contra a geração”, a liberalização do aborto. O casal Ramalheira acrescentou mais estas: a reprodução medicamente assistida (ou, pelo me-nos, algumas das suas práticas), o “casamento” homossexual, ou a “legalização da prostituição como actividade profissional legítima”. E denunciou mesmo uma orquestração para introduzir estes temas no debate público. “Há equipas a trabalhar nisso. No segundo semestre de 2007, vai aparecer a questão da legalização da prostituição em força”, disse Carlos Ramalheira, enquanto Ana Maria acrescentou que, em Novembro de 2006, o aborto estará novamente na ribalta.

Liberdade degradante

Segundo Carlos Ramalheira, trava-se mesmo uma batalha entre o bem e a liberdade, sendo a liberdade entendida como a possibilidade de escolher mesmo o que é degradante. “O homem é feito à imagem de Deus e convenceu-se que é o próprio Deus”, disse. Contudo, esse processo, para o qual contribuem a deformação e insensibilização que os meios de comunicação social produzem, não é uma fatalidade. Apesar do panorama negro que a certa altura do encontro parecia estar a gerar-se, Carlos Ramalheira declarou que “este não é o pior dos tempos”, lembrando, como exemplo, que, a quando do referendo do aborto, quando toda a gente julgava que ia vencer a liberalização, ganhou o “não” ao aborto a pedido. O que está em questão é “sabermos o que queremos para a nossa vida e a dos nos-sos filhos”, disse o médico e professor universitário de Coimbra. E concluíu manifestando a sua certeza na vitória do bem. Numa referência à mensagem bíblica e à fé cristã, confessou o que leva, como católico, ao compromisso: “Informaram-nos que o bem vai ganhar. O jogo está viciado. Eles não sabem que vão perder. Mas vão”. Pelo que ficou o conselho: “Não nos desestruturemos. Mantenhamo-nos fiéis”.

Primeiro, a família

Em meados do séc. XX, os ataques à instituição familiar vinham de “ideologias que prometiam a utopia na terra”. Carlos Ramalheira apontou como o marxismo se uniu ao freudismo e ao anarquismo em Wilhelm Reich e Herbert Marcuse contra a família: “Para reformar a sociedade, era preciso pôr em causa os valores sociais e a família era o primeiro alvo a abater para construir a utopia”.

Hoje os ataques provêm da liberdade individual, mas mantém-se o alvo, como se a família fosse um entrave à felicidade pessoal. Para quem quer impor os seus valores, continua a ser o “a primeira instituição social a destruir”.