“A arte pode ser uma via contra o medo que frustra e paralisa”, defendeu D. Manuel Clemente, em conferência.
“É problemático falar de arte cristã”. Mas é igualmente “impossível evitar falar de arte cristã”. “Há uma tensão irresolúvel que tem de se manter”, porque “a encarnação de Deus-Filho legitimou a materialização imagética”. As expressões são de D. Manuel Clemente, na noite do dia 20 de Abril, no edifício da antiga Capitania, perante uma plateia muito interessada. A conferência integrou-se na exposição de arte moderna “O sentido da vida: que horizontes?”, que decorreu até domingo passado nesse edifício.
O Bispo Auxiliar de Lisboa considerou que, apesar de ser “problemática a adjectivação dos derivados de Cristo” [“arte cristã”, “música cristã”, “civilização cristã” e até “vida cristã”], porque “Cristo é maior do que qualquer circunstância”, podemos usar com reservas a expressão “arte cristã”, embora fosse preferível falar de “Cristo na arte”. E lembrou a crise dos iconoclastas, isto é, “destruidores de imagens”, que, no séc. VII, no Império Romano do Oriente (na zona da actual Grécia e Turquia), destruíam os ícones, por considerarem que as realidades divinas não podiam ser representadas por imagens, princípio que é levado ao extremo no judaísmo e no islamismo (e em algum protestantismo). No ano 787, no segundo Concílio de Niceia (na actual Turquia), as imagens seriam reabilitadas, porque, se Cristo assumiu a natureza humana (encarnação), assumiu uma imagem. Os iconoclastas foram derrotados e a expressão artística de Cristo e dos mistérios da fé ganhou cidadania.
Notando a valorização da arte ocidental a partir do Renascimento, por parte de João Paulo II, para quem a criação artística é “uma espécie de centelha divina”, D. Manuel Clemente sublinhou que, hoje, “não podemos pensar na morte nem no nascimento ou na vida sem uma referência a Cristo”, porque Ele está enraizado na cultura portuguesa. Como exemplo desse enraizamento, o prelado referiu algumas expressões do caminho doloroso de Jesus Cristo que entraram na linguagem corrente: “parece um pobre Cristo”, “chora que nem uma Madalena”, “levar a cruz”, “Calvário da vida”, entre muitas outras.
Beleza redentora
D. Manuel Clemente, que é também presidente da Comissão Episcopal da Cultura, afirmou que “a pastoral da arte é fundamental, como a da contemplação”. Porém, nesse campo, “nem começámos ainda”. “Estamos muito incipientes, muito exortativos, muito moralizantes”, disse, sublinhando que a arte pode ser uma via contra “o medo que frustra e paralisa”, pode “dar razões da esperança”, na medida em que “for interpelativa”. Ou, como escreveu o romancista russo Dostoiévski, citado, “a beleza salvará o mundo”. Mas que beleza? A frase, dita por D. Manuel Clemente, ficou a ecoar nas conversas dos ouvintes, após a conferência: “A beleza que salva o mundo é o amor que partilha a dor”.
João Paulo II, Papa amigo dos artistas
Citando várias vezes a “Carta aos Artistas”, de João Paulo II, D. Manuel Clemente considerou que o Papa Wojtyla foi audaz ao valorizar, de um ponto de vista cristão, a arte ocidental a partir do Renascimento. Tão audaz que alguns artistas cristãos põem reticências à pretensão wojtyliana. O que disse afinal o Papa? Entre outras, estas duas frases citadas pelo bispo lisboeta: “O que vai caracterizando cada vez mais tal arte, sob o impulso do Humanismo e do Renascimento e das sucessivas tendências da cultura e da ciência, é um crescente interesse pelo homem, pelo mundo, pela realidade histórica. Esta atenção, por si mesma, não é de modo algum um perigo para a fé cristã, centrada sobre o mistério da Encarnação e, portanto, sobre a valorização do homem por parte de Deus”. (“Carta aos Artistas”, 4 de Abril de 1999. nº 9)
Sobre a arte moderna e contemporânea, por vezes aparentemente tão distante do que poderia ser considerado arte cristã, João Paulo II escreve: “Mesmo quando perscruta as profundezas mais obscuras da alma ou os aspectos mais desconcertantes do mal, o artista torna-se, de qualquer modo, voz da esperança universal de redenção”. (nº 10).
Valores evangélicos em obras contemporâneas
D. Manuel deu alguns exemplos do último século e da actualidade de arte “impregnada de tópicos evangélicos”: a música do espanhol Joaquim Rodrigo, do francês Olivier Messien, do lituano-húngaro Arvo Part, ou dos portugueses Lopes Graça (como o “Requiem”, para homenagear as vítimas da ditadura) e Eurico Carrapatoso (“Magnificat” com passagens evangélicas e poesia popular); os vitrais de Júlio Pomar, na igreja da Pontinha (Lisboa); a poesia de Daniel Faria, Tolentino Mendonça e Fernando Echevarria; ou mesmo os romances de Saramago, autor que “insistindo na falta de redenção, por contraste, nos abeira da necessidade de redenção”.
