Muito se escreveu sobre os erros históricos, matemáticos e científicos do livro/filme. Alguns dos mais evidentes têm a ver com o Priorado de Sião (que não foi criado em 1099, como diz o livro/filme, mas em 1956, por Pierre Plantard, um desequilibrado mental, que se queria fazer passar por descendente dos reis merovíngios), com o Concílio de Niceia (que não serviu para condenar o paganismo, mas sim o arianismo, uma heresia cristã), ou com a forma mais rápida e eficaz de abrir o criptex. O enredo da obra anda à volta de um jogo de pistas para conseguir a palavra chave de abertura desse pequeno cofre. A questão é que, para abrir tal artefacto basta pô-lo no congelador durante uns minutos. O vinagre do seu interior, congelado, já não destrói o papiro…
Porém, pouco se tem dito ou escrito sobre os evangelhos apócrifos, que supostamente a Igreja teria escondido dos crentes. Em “O Código da Vinci” fala-se do Evangelho de Filipe, como há dias se falou do Evangelho de Judas. Curiosamente, Dan Brown não diz que o Evangelho de Filipe, o tal que fala da Madalena, recusa a procriação, uma das ideias centrais do gnosticismo antigo…
Fica, no entanto, a questão: Por que é que a Igreja aceitou apenas quatro evangelhos? Marcos, Mateus, Lucas e João são considerados “inspirados pelo Espirito Santo”, enquanto pelo menos duas dezenas, tendo em conta as referências e transcrições que os teólogos cristãos deixaram nos seus próprios escritos e os achados arqueológicos de Nag Hammadi (Egipto), são considerados não inspirados. E não adianta dizer que “são quatro porque se fossem três eram de menos e se fossem cinco era de mais”…
Vale a pena fixar o que vem na pág. 40 do “Curso de Iniciação à Leitura da Bíblia”, de La casa de La Biblia, ed. Gráfica de Coimbra:
“Nem todos os escritos do cristianismo nascente foram incluídos no cânone, ou lista de livros sagrados do Novo Testamento. Alguns escritos, de indubitável carácter cristão e compostos ainda dentro do séc. I d.C., como a Didaké ou a carta de São Clemente Romano aos Coríntios, não foram contados entre os livros que contêm a revelação cristã. Porque é que apenas vinte e sete daqueles escritos começaram a fazer parte da lista ou “cânon” de livros inspirados e normativos para a fé e para a vida da Igreja? Que critérios se utilizaram para aceitar uns e recusar outros?
O processo de formação do cânon foi lento, conheceu diversas etapas e prolongou-se até ao séc. II d.C. Foram três os principais critérios usados para determinar quais os livros que deviam fazer parte da lista dos escritos revelados:
– Em primeiro lugar, a sua apostolicidade, isto é, a origem apostólica de um escrito, por ter sido composto por um apóstolo, ou por algum dos seus colaboradores ou discípulos.
– Em segundo lugar, a conformidade de um escrito coma tradição viva da Igreja, ou seja, a sua ortodoxia.
– Em terceiro lugar, foi um critério de grande importância o facto de tais escritos serem usados na leitura pública da Igreja na maior parte das comunidades cristãs”.
Este último critério, a “liturgicidade” ou “uso litúrgico”, que alguns estudiosos consideram ser o mais importante, significa que antes de o escrito ser aprovado pela autoridade foi seguido (e rezado) pelas primeiras comunidades cristãs.
Nota final: Quem desejar saber mais sobre as questões levantadas pela referida obra, pode consultar http://pt.jesusdecoded.com, a tradução em português do site norte-americano referido nestas páginas na semana passada.
