É na família que começamos por nos identificar com “o bom” e “o mau” e aprendemos a conhecer e a ter relações íntimas com algo ou alguém. A família, como verdadeira continuação do útero materno, é o imprescindível “útero social” que permite à criança assumir-se como mais um membro adulto da espécie humana. Aliás, a integração social dos mais novos exige uma bem sucedida integração social dos mais velhos. Como o primeiro filho exige um bom esforço de adaptação da parte dos progenitores ou pais adoptivos.
Começa assim a surgir o “grupo perfeito”: aquele em que se partilha a experiência de vida de cada qual. Esta “comunhão de vida” será tanto mais rica quanto maior variedade tiver o grupo. Se reduzíssemos educação a uma fórmula, poderia ser “herança + criatividade = progres-so”. Só transmissão de herança gera imobilismo e conformismo; só criatividade gera desordem e vazio. É necessário criticar tanto a nossa herança como a nossa criatividade, num ambiente de liberdade, de amor e de procura da verdade. Para ter consciência da vida, para saborear a vida, para “ter a vida em abundância”, é necessário dispor de tempo para parar e limpar, para admirar e amar a vida que se manifesta com tão caprichosa beleza em cada um de nós. Quantos pais, quantos adultos, dispõem de tempo e coragem para simplesmente contemplar (=amar) as crianças? Quantas crianças têm a oportunidade de contemplar com amor os seus pais ou educadores?
Na família, como grupo perfeito, todos experimentam e testemunham a alegria de viver, que supera o sofrimento passageiro mas extraordinariamente fecundo de dois partos: a morte e o nascimento. É na família que temos a experiência de como cada pessoa é para nós uma viagem no desconhecido, com todos os perigos e maravilhas. Na família, ganha forma o modelo da discussão: escutar e falar com simpatia e discernimento, de tal modo que o desacordo, claramente manifesto, não afecte a união e progressiva descoberta positiva do outro. Na família, é a sexualidade de cada qual que se revela, se contrasta e se identifica – e se torna mais rica. Pois o “grupo perfeito” permite e alegria da descoberta sexual, das virtualidades do nosso corpo e da força do sentimento, bem como das riquezas características de cada sexo.
Na família, aprendemos a viver as tensões. Aprendemos o valor de ter um ponto de referência positivo, que permite educar a identidade e a independência e ganhar a força que enfrenta a própria solidão.
Pode-se dizer que a família é uma sala de leitura: onde se ensina a ler o nascimento e a morte, a alegria e a dor, a infância e a velhice, convívio e solidão, ordem e desordem… em suma, lê-se a vida, ora em voz baixa ora em voz alta…
Como é que fazemos as nossas “leituras”?
Manuel Alte da Veiga
Professor Universitário
A convite da Escola de Pais da Paróquia da Vera-Cruz, no dia 19 de Janeiro, o professor Alte da Veiga proferiu uma palestra sobre “os pais que somos; os filhos que temos”, a que assistiu uma centena de pessoas. Pela mão do próprio palestrante, aqui ficam as ideias principais .
