O coração e a razão

Como se prova o amor entre duas pessoas? E como é que sabemos que temos as ideias claras? E qual o melhor entendimento sobre esta ou aquela questão? O que faz sentido agora também vai estar certo mais adiante?

Estas e outras dúvidas recorrentes obrigam-nos a pensar e a procurar respostas. Ainda que a sensação seja resolver tudo pela via da razão, na realidade aquilo que mais transforma a nossa vida é aquilo que sentimos e em que acreditamos, Nem sempre aquilo que compreendemos nos leva mais longe, porque nem sempre a compreensão racional nos traz sentimentos positivos de que precisamos para avançar.

Um dos grandes mistérios da vida é justamente este de não podermos provar tudo cientificamente. E muito do que não se prova pela razão, prova-se pelo coração. Comprova-se existencialmente, pela via dos sentimentos, dos afectos e das relações que vamos criando.

Como é que se prova o amor entre duas pessoas, por exemplo? Se o amor é verdadeiro, vai dando sinais. Que sinais? Sinais de amor propriamente dito, de cumplicidade, de comunhão, de entendimento, de crescimento interior, de alegria, de confiança e, ainda, de esperança no presente e no futuro, entre tantos outros.

O amor sente-se; e é porque nos sentimos amados e porque amamos que confiamos mais em nós e nos outros. O amor entre duas pessoas não se comprova cientificamente, mas confere-se na vida vivida todos os dias. É uma atitude, uma maneira de estar, de ser e de sentir, que está muito para além da compreensão intelectual.

Provar a um filho que o amamos não passa por escrever um tratado sobre o amor que sentimos por ele, mas sim pelos sinais que lhe damos. Pela qualidade e quantidade de tempo que passamos com ele, pela disponibilidade com que o ouvimos, pela verdade com que nos relacionamos, pela capacidade de o acolher tal como é, de o perdoar e nos fazermos perdoar e de o ajudar a crescer, crescendo com ele.

Perceber a importância e o peso do coração na nossa vida passa por nos perguntarmos de onde nos vem a segurança e a confirnaça. Da razão? Daquilo que conhecemos e percebemos ou daquilo que sentimos e em que acreditamos? Claro que tudo isto também vem da razão, mas, ainda assim, o coração tem muito mais peso.

Todos temos a tentação de pensar que seria tudo infinitamente mais fácil e seguro se se pudesse demonstrar cientificamente. É uma ilusão pensar assim, pois a maior parte das nossas seguranças nascem no coração, e comprovam-se na vida.

Não se trata de desvalorizar a ciência, muito pelo contrário. Trata-se de a pôr no sítio certo. Tão pouco se trata de minimizar os nossos conflitos internos e as nossas dúvidas eternas. Vivemos e viveremos sempre cheios de dilemas e com muito mais dúvidas do que certezas e, por isso mesmo, importa estarmos atentos àquilo que sentimos.

Uma vez aqui chegados, vale a pena referir que o coração também tem as suas armadilhas e, por isso, precisamos de ficar especialmente atentos aos sentimentos mais profundos. Ou seja, o coração pode ser muito traiçoeiro e instável à superfície. Ao nível das sensações e das emoções. Por isso mesmo, é essencial perceber os sinais transformadores e, porventura, mais íntimos.

E, ao mesmo tempo, tomar consciência de que as verdadeiras certezas, as maiores alegrias, a grande confiança e toda a esperança vêm, acima de tudo, do coração.