História do Futuro Era uma vez uma cidade que não tinha casas velhas; a cidade era bonita e airosa e, por isso, não admitia nada que destoasse da concepção que para ela os artistas tinham programado. Dum lado e doutro de ruas e avenidas, só se erguiam casas bem arquitectadas, a sugerir que outros edifícios fora de linha não tinham ali cabimento.
Um dia, pela calada da lei, entrou na cidade um grupo de forasteiros que estranhou a arrumação da cidade e não encontrou sítio de paragem; tudo era, de facto, estranho!
Na coragem de quem se sente no direito de viver ou, ao menos, de sobreviver, puxam pela coragem de tentar activar os sistemas de alarme das casas novas e belas. De dentro, só ouvem vozes estranhas que indicam outros alarmes, que ficam noutras casas e noutras ruas; talvez lá encontrem pessoas…
Foi assim que os forasteiros, de porta em porta, sempre encontraram o que pretendiam: uma casa velha, que tinha escapado aos artistas que faziam e refaziam a cidade; foi o maior achado da sua vida de peregrinos, sem eira nem beira, onde poderão assentar arraiais e, finalmente, dormir e poder sonhar. Dali poderão entrar e sair sempre que queiram, podem regressar à hora que quiserem, podem até alimentar algumas ilusões, lado a lado com outros seus semelhantes, também já desesperados de tantas respostas inconsequentes; estão felizes na casa velha, que quase já é sua.
Até ali, ninguém tinha dado conta da existência daquele albergue, que lhes fez a misericórida do acolhimento, coisa que os entendidos ainda não puderam resolver.
Como a cidade era bonita e airosa, não concebia que pudesse nela existir uma casa velha, ainda por cima com estranhos a habitá-la, que entravam e saíam quando queriam e davam um mau ar à cidade bonita e airosa.
Quando menos se esperava, os sinos das torres dos templos tocaram a rebate; os altifalantes começaram a emitir mensagens de alarme; os senhores da cidade dão conta da existência de uma casa velha e reúnem de emergência; quem não sabia ficou a saber; há unanimidade indiscutível; estudam-se programas; tomam-se soluções. E também um dia, na calada da impiedade, os mesmos sinos repicam festivamente, os altifalantes proclamam vitórias, convoca-se o povo, trazem-se as máquinas… e começa o espectáculo: poucos minutos são suficientes para limpar a cidade; e a casa velha deixou de parecer mal aos fazedores de casas novas, aos programadores de cidades lindas e airosas, porque agora temos uma praça, onde podem ser plantadas oliveiras e palmeiras. Acabou a história da casa velha. Alguns habitantes também gostaram muito.
…
Passados séculos e séculos, os historiadores recordavam, em vão, a existência da casa velha; todos falavam dos estranhos, seus inquilinos, que agora não tinham onde dormir, conversar e sonhar, alguns identificavam-nos por cima de papelões a contemplar estrelas que sugerem poemas escritos na dor, no frio e na saudade, que nunca ninguém lerá; outros perfilavam-se para ganhar vez no refeitório dos pobres; também se falava de uns quantos que pararam numa casa de reclusão, por brigas e pequenos furtos de sobrevivência; uma boa parte refugiava-se nas drogas autorizadas, para disfarçar dores e saudades. Tudo agravado, diziam alguns observadores, porque a casa nunca fora substituída por outra qualquer casa, que abrigasse dos temporais e fortes nortadas que por lá se faziam sentir.
Nessa cidade das ilusões já não há edifícios a incomodar. Mas também não há nenhum tecto nem nenhuma muralha nova que abrigue de chuvas e ventos. Também é verdade, diga-se, que a intenção não era criar gente para a rua; era só, e apenas, dar um rosto mais bonito e airoso à cidade do futuro. E alguns corações pensavam e comentavam à boca pequena: “de facto, é mais fácil reconstruir uma cidade do que reconstruir uma pessoa!” E todos diziam: “Agora, com a nossa cidade tão bonita e airosa, só falta mesmo pensar mais nas pessoas”.
P.S. Aos que entenderam a “História do Futuro”, peço desculpa por não ter sido claro.
