«Não se pode distribuir o que não existe». Esta é uma afirmação muito difundida, sobretudo quando é baixo ou nulo o ritmo de crescimento económico. Afirma-se nessa conformidade que, sem crescimento económico, não pode ser melhorada a repartição de rendimentos.
Ambas as afirmações distorcem a realidade e servem de pretexto para a demissão das políticas e responsabilidades sociais. Transmitem, tacitamente, a ideia de que os pobres e os problemas sociais devem esperar por melhor oportunidade.
Contrariamente ao teor destas afirmações, existe sempre qualquer coisa a distribuir. Mesmo que, por absurdo, nada existisse, restaria, pelo menos, o papel da acção solidária e do esforço organizado para se enfrentarem as carências sociais. A solidariedade entre as pessoas pobres revela bem as potencialidades da entreajuda, mesmo nos piores momentos e nas maiores necessidades.
Quando prevalece o objectivo da repartição de rendimentos justa e humana, ele realiza-se, com especial ênfase, no meio das dificuldades. Quando não prevalece tal objectivo, aproveitam-se as situações de dificuldade para se tornar a sociedade mais desigualitária, como acontece entre nós há vários anos.
É nos momentos difíceis que se põem à prova a solidariedade humana e as políticas socializantes. São muitas as hipóteses de medidas de política social recomendáveis nesses momentos, e todas elas se devem caracterizar pela modéstia dos respectivos meios financeiros, sob pena de agravarem a situação económico-social.
A título exemplificativo, e de maneira sumária, podem referir-se entre essas medidas: (a) – a garantia de satisfação de necessidades básicas, particularmente as de alimentação; (b) – a facilitação da criação e desenvolvimento de micro e pequenas empresas e de cooperativas, sem a perversão dos apoios financeiros a fundo perdido; (c) – o fomento de trabalho em equipa, sem a perversão das desigualdades salariais chocantes; (d) – a promoção do voluntariado de proximidade, para conhecimento dos problemas sociais, cooperação na procura de respostas e animação para o desenvolvimento local.
