Desafios que permanecem (4)

Para os leitores mais atentos, que têm acompanhado os desafios deixados nesta coluna ao longo dos últimos meses, deixei claro que se torna impossível concluir um balanço de dois anos de missão ad-gentes sem que se fique com a sensação do muito que ainda restou por fazer.

Tentarei, de forma resumida, terminar estas recentes inquietações, com referência a um tema no âmbito dos Direitos Humanos, que, certamente, vai ocupar as atenções dos militantes que ficaram no Maranhão.

Por várias vezes, neste espaço, deixei transparecer a minha atracção pela cultura negra afro-brasileira. Dado já o ter feito em momentos anteriores, prefiro não alongar-me muito sobre este assunto. Porém não posso concluir esta sequência de partilhas sem destacar os muitos desafios que se colocam às comunidades quilombolas no nordeste brasileiro, em especial no Baixo Parnaíba maranhense.

Lembro as comunidades quilombolas que tive possibilidade de visitar e/ou acompanhar: Vila das Almas, Árvores Verdes, Santa Cruz, Rampa, Pequizeiro, ou toda a área do Bom Sucesso. Louvo todo o trabalho de cidadania e resgate da cultura negra levado a cabo, por exemplo, pela SMDH – Sociedade Maranhense de Direitos Humanos, pelo CCN – Centro de Cultura Negra do Maranhão, e, claro, no município de Mata Roma, o apoio prestado pelas Missionárias da Boa Nova. Contudo, antevejo grandes dificuldades no trabalho que tantos e tantas hoje realizam. A escravatura no Brasil já foi abolida há 120 anos, mas, na prática, a situação dos afro-brasileiros permanece como uma das mais críticas em termos de violações sistemáticas aos seus direitos básicos.

Os descendentes de africanos, remanescentes dessas comunidades de resistência que foram os quilombos, vêem-se hoje a braços com o forte poder político das famílias de fazendeiros e com o surgimento do novo latifúndio que dá pelo nome de agro-negócio. Tudo isto agravado pelo facto da maior parte das “terras de preto”, onde vivem os afro-descendentes, ainda não serem reconhecidas, legalmente, como comunidades quilombolas. A título de exemplo posso citar a gleba quilombola do Bom Sucesso: das mais de cinquenta comunidades que fazem parte da área, o governo apenas reconhece oito!

Há imenso trabalho a fazer: é necessário continuar o processo de reconhecimento das áreas quilombolas, implementar projectos de capacitação profissional dos jovens negros e estimular o surgimento de actividades sócio-económicas sustentáveis.

Desafortunadamente, aliada a tantos factores, há que contar, ainda, com a baixa auto-estima de alguns afro-descendentes. Paradigmático: as vezes em que estive no Bom Sucesso constatei que muitos quilombolas nem sequer tinham documentos civis como “registro de nascimento” ou “carteira de identidade”!

O trabalho terá que passar, nesta medida, por uma consciencialização política e de cidadania que resgate a identidade étnica cultural dos quilombos. Na verdade, trata-se de algo tão urgente como as outras medidas sócio-económicas.

Em jeito de conclusão, e como facilmente se deduz, resta acrescentar que só a melhoria das condições de vida das populações e a aprovação de políticas inclusivas para os sectores mais desfavorecidos da sociedade podem responder, de forma determinante, a estes desafios que, ao longo dos últimos meses, partilhei convosco.

Como cristão apenas reafirmo ter Esperança de que o futuro seja mais risonho para os homens, mulheres e crianças do Maranhão que aprendi a amar.

Como militante das causas populares, resta-me estimular e apoiar, ainda que à distância, as lutas diárias que os companheiros e companheiras vão travando naquele pedaço de chão no Nordeste Brasileiro.