Em cima da Linha Hoje quero escrever para os católicos. Sei que nisto, como em tudo, não se pode generalizar e, portanto, não quero meter tudo no mesmo saco. Mas quero tomar consciência da responsabilidade que recai sobre os católicos como católicos. Nós somos injustamente acusados de muitas coisas pelos de fora e justamente censurados em tantas outras. Não o podemos ignorar. Sabemos assumir a nossa culpa e sabemos reagir contra a injustiça. Mas hoje quero falar para dentro.
Dizia S. Paulo, no passado domingo, que muitos se comportam como inimigos da Cruz de Cristo. Inspirado por ele, Eu digo isso de outra maneira: muitos comportam-se como inimigos da sua própria Igreja. Esses muitos são, no meu alcance, todos os baptizados na Igreja católica que, não tendo renegado a sua fé, se continuam, por isso, a chamar católicos: Católicos que pedem o baptismo para os seus filhos, católicos que querem educar os seus filhos na linha dos valores em que foram educados, valores que eles próprios não seguem, católicos que desejam contrair matrimónio na Igreja ou na igreja, católicos de missa ao domingo, alguns católicos de comunhão, alguns catequistas, festeiros e outros. Está dentro da Igreja a força negativa da própria Igreja. Acredito que os maiores inimigos não são os de fora, são os que estão dentro e que não andam nem deixam andar.
A liturgia do 2.º Domingo da Quaresma põe diante dos nossos olhos a transfiguração do Senhor. Ele, que se fez em tudo igual a nós menos no pecado, mostra-se, aos que já o conheciam na sua expressão humana, na realidade da sua condição divina, para manifestar à humanidade a riqueza da presença divina em cada um de nós. Riqueza essa que nos desafia à transfiguração interior e exterior. Todos nos apreciamos quando nos olhamos ao espelho; todos cuidamos da nossa imagem e todos gostamos que nos apreciem. Os outros são o espelho onde nos vemos reflectidos, ainda que alguns espelhos aumentem a imagem e outros a diminuam. A sociedade de hoje vive muito da imagem. E direi que não estará mal se tal apreciação for objectiva.
Cada um de nós, e a Igreja no seu todo, tem uma imagem diferente, conforme se observa de fora para dentro ou de dentro para fora. Em resposta à sua missão, a Igreja apresenta, tem de apresentar, a sua imagem real. Esta imagem é, muitas vezes, fictícia, qual máscara de Carnaval; esta imagem é, frequentemente, distorcida; outras vezes é mesmo uma caricatura; outras ainda uma pesada herança dos antepassados; só algumas vezes é a imagem real, ainda que, aqui ou ali, envergonhada, de um compromisso e uma entrega de vida, consciente do seu pecado, mas certa da ressurreição. Por isso, aos católicos compete fazer passar a imagem de Deus em cada um, de um Deus que quer as pessoas, a Igreja e a sociedade transfiguradas.
Perdemos uma grande oportunidade de dar uma imagem positiva ao nosso mundo, nós, os católicos, que até fomos acusados de ter dado a vitória ao sim, ao aborto. Sem rodeios! Aceito a verdade dessa acusação, quando reconheço que mais de noventa por cento da população deste país é gente católica porque baptizada, embora também aceite que a maioria não passa disso mesmo. É que só receberam o baptismo por causa da imagem! Mas, deixando esta maioria que, não querendo a Igreja, nos continua a incomodar pedindo sacramentos para os seus filhos, quero voltar-me para os que vão enchendo as nossas igrejas.
A Igreja não tem uma disciplina partidária que penaliza os que votaram contra a opinião imposta pelo partido. A Igreja tem princípios segundo os quais podemos formar a nossa consciência e agir, depois, de acordo essa consciência doutrinal e moral. Não é uma doutrina imposta mas uma doutrina proposta e acolhida na linha dos valores-suporte da humanidade, de ontem e de hoje, nesta terra ou naquela.
Não me lamento pela derrota, mas entristeço-me pela imagem suja que demos, pela imagem conspurcada que permitimos ser entendida como imagem de todo este país. Lamento a hipocrisia de tantos católicos que não se comportaram como cristãos, discípulos do mesmo Cristo, que assumiu a humanidade até às últimas consequências. Sujámos a cara da humanidade, escarrámos na imagem da nossa Igreja, lançámos mais poeira para as rugas da nossa sociedade envelhecida. Obrigados pela força moral da nossa consciência e da nossa fé a ter comportamentos transparentes, resultantes de ideias desempoeiradas, abdicámos daquilo que nos poderia engrandecer, e lavámos as mãos, em atitude cobarde, em nome de uma pseudo-defesa da mulher.
As cruzadas e a inquisição envergonham-nos, a colonização e a destruição de culturas tornaram-nos bárbaros, o fascismo e as ditaduras massacraram-nos, é verdade! Agora, em princípios do séc. XXI, no início do terceiro milénio, vemos a democracia invadida por uma imensa maré negra e somos esta Igreja que deixa uma nódoa enorme no seu historial.
E pensar que fomos nós, os católicos, por ausência ou por inconsciência culpada, os responsáveis por esta situação, quando nos pertencia apresentar ao mundo uma imagem lavada da Igreja, comprometida com a sua fé e com a missão de salvar a humanidade.
