Fidelidade a Jesus e fidelidade às pessoas

À Luz da Palavra – Domingo VI da Páscoa A Palavra deste domingo prepara-nos, decididamente, para a Ascensão do Senhor, festa que celebramos no próximo domingo. Nesta Palavra, sobressai a promessa de Jesus em acompanhar, de modo permanente, a caminhada da sua comunidade em marcha pela história, sob a acção do Espírito Santo.

No evangelho, Jesus fala da importância de ter sempre presente, na mente e no coração, a palavra que Ele nos ensinou a praticar. Essa palavra não é apenas dele, mas é também do Pai, e continuará a ser-nos ensinada pelo Espírito Santo, o Consolador, que nos é enviado pelo Pai e pelo Filho. Guardar e cumprir a palavra do Senhor é garantia de paz, de concórdia e de bom entendimento entre os membros da comunidade e destes com os outros irmãos e irmãs. A paz é o dom por excelência do Ressuscitado. Todo aquele que vive a vida nova de ressuscitado em Cristo usufrui da paz e é pacificador.

A primeira leitura apresenta-nos um facto concreto de discórdia e de restituição da paz na comunidade primitiva. Levantaram-se dúvidas sobre se os gentios convertidos a Cristo deveriam ou não ser circuncidados antes de receberem o baptismo. Foi tal a agitação que provocou um primeiro concílio em Jerusalém. Depois da discussão, os discípulos do Senhor e o Espírito Santo decidiram não impor tal obrigação aos irmãos saídos do paganismo, mas pedir-lhes apenas o cumprimento de algumas obrigações consideradas importantes na época. E, assim, porque Cristo continua presente na comunidade, foi possível chegar a um acordo. Também hoje, na Igreja, se levantam muitas questões relativas a práticas eclesiais, sendo umas mais fundamentais do que outras. Por vezes, encontramos verdadeiras divisões entre os e as discípulas do Senhor! O recurso à palavra de Jesus e à prática das primeiras comunidades parece ser o único meio de reencontrar a paz. Hoje, tal como ontem, é preciso ajustar práticas e encontrar o caminho de fidelidade à palavra de Jesus, que é também caminho de fidelidade às pessoas de cada tempo.

A segunda leitura mostra-nos a “cidade santa de Jerusalém”, isto é, a comunidade cristã dos tempos futuros, fundada sobre os apóstolos do Cordeiro. Nela não há templo nem necessidade da luz do sol ou da lua, porque Jesus Cristo é o seu templo e a sua lâmpada. É no intento desta cidade que nós caminhamos. Cidade cheia de harmonia e de paz, porque nela somos um só em Cristo e todos nos sentimos totalmente realizados. A comunidade cristã tem uma história e um projecto. Esta é a nossa utopia. É o que alimenta o nosso sonho, na esperança activa de que, começando desde aqui e agora a construir esta cidade, estamos esboçando o que será totalmente acabado no fim dos tempos. A Palavra inquieta-nos e impele-nos ao compromisso eclesial e social, hoje!

Domingo VI da Páscoa: Act 15,1-2.22-29; Sl 67 (66); Ap 21,10-14.22-23; Jo 14-23-29

Deolinda Serralheiro