A Acção Católica na Diocese de Aveiro

Testemunho Como foi noticiado, realizou-se no Porto, nos passados dias 7 e 8, o Fórum Comemorativo dos 75 anos da Acção Católica.

Da nossa Diocese estiveram presentes alguns militantes e também o nosso Bispo. É certo que neste momento muitas associações e movimentos novos proliferam, mas a Acção Católica continua e quer ter o seu lugar. Precisa e espera o apoio da hierarquia, nomeadamente dos párocos, para novos impulsos de crescimento.

Na Diocese de Aveiro, existiram quase todos os organismos da Acção Católica, que, mais tarde, por força das circunstâncias, se foram fundindo, dando origem aos movimentos actuais.

Muitos militantes da época áurea mantêm a determinação de continuarem a ocupar o seu lugar na Igreja, actuando nos movimentos de Acção Católica, ou integrando-se noutros, no mundo novo que os rodeia.

Tive a felicidade de dar o meu melhor como jovem entre os anos 50 e 60 do século passado.

Ainda criança, iniciei-me no organismo juvenil da Juventude Agrária Católica Feminina (JACF), que havia sido fundado na minha paróquia de origem, entre os anos de 37 e 38.

Mais tarde, acabados os estudos, fui convidada para integrar a direcção diocesana. Foi ao seu serviço que percorri os quatro cantos da Diocese, desde o lugar da Poutena, em Vilarinho do Bairro, e Moita (Anadia), até Rocas e Couto de Esteves (Sever do Vouga), muitas vezes utilizando como meio de transporte a bicicleta para completar os percursos onde os outros meios de transporte não chegavam.

Entre 1953 e 1960, a JACF possuia cerca de 40 “secções” (nome dado às equipas paroquiais de militantes), em outras tantas freguesias da Diocese.

Como preparação, tínhamos quinzenalmente as reuniões da equipa diocesana, com a colaboração activa do respectivo assistente. Além destas, havia actividades regionais e diocesanas como cursos, recolecções e retiros e visitas regulares a todas as secções.

E não olhávamos a sacrifícios. No velho edifício, junto à Igreja da Vera Cruz, tínhamos o nosso Secretariado. Ali, além da formação, organizavamos os projectos mensais de trabalhos. À falta de melhor, confeccionávamos refeições rápidas numa velha máquina a petróleo e, quando havia necessidade de ficar para o dia seguinte, dormíamos num quarto que ali existia.

Realizaram-se cursos e retiros em locais e de modo hoje inadmissíveis. Dormia-se no chão ou em camas improvisadas, às vezes nos palheiros e em cima da palha. Para os trabalhos serviam os espaços de casas agrícolas e, para a oração e meditação, as capelas próximas.

Organizaram-se campos de férias em S. Jacinto, nos antigos edifícios de seca do bacalhau, com camas levadas do Seminário, com o consentimento do Bispo de então – D. Domingos da Apresentação Fernandes. O resto, incluindo as batatas e as cebolas, era levado da casa de cada um, o que tornava a iniciativa mais motivadora, ainda.

Chamados pelo nosso Bispo, participámos na Missão da Bairrada, onde além da parte positiva do trabalho, tembém estivemos metidos em algumas peripécias.

As condições da nossa instalação em Aveiro só melhoraram com a decisão do Senhor D. Domingos, que pouco antes de falecer, nos proporcionou hospedagem, paga pela Diocese, na “Casa de Santa Zita”.

Com o advento da mudança política em Portugal, a Acção Católica, como organização nacional dependente da hierarquia desagregou-se. Mas os movimentos, agora autónomos e estruturados de forma diferente, continuaram, mantendo-se uma grande parte dos seus membros fiéis ao seu fim apostólico – ser fermento no próprio ambiente familiar, social e de trabalho.

A Acção Católica, como movimento de evangelização das pessoas, dos meios e ambientes não está ultrapassada, nem morreu, antes pelo contrário, mantém-se plenamente actual. Na nossa Diocese, como noutras, precisa de se identificar com as novas formas de vida, de se organizar em função das exigências actuais e da colaboração interessada e esclarecida da Hierarquia.

Há ainda e cada vez mais, “caminhos não andados que esperam por alguém”.

Cândida Abreu