Notas Litúrgicas 3. Há um terceiro elemento de aproximação e de iluminação sobre o tema da adoração eucarística: é a perspectiva espiritual. Quem pode negar a força espiritual da oração diante da reserva eucarística e os frutos de vida cristã que produziu ao longo da história? Também recentemente, e devido precisamente à reforma litúrgica, se aprofundou mais o sentido desta adoração.
Por um lado, a oração diante da reserva eucarística fica claramente situada no plano da oração cristã, e não no plano da dinâmica sacramental propriamente dita. A adoração eucarística não pertence propriamente à acção sacramental: o sacramento não está destinado à adoração da mesma maneira que está destinado à comunhão. Ora bem, isto não significa que a adoração seja alheia ao acto sacramental; como disse o Concílio de Trento: «Ninguém deve duvidar que os cristãos tributam a este santíssimo sacramento, ao venerá-lo, o culto de latria, que se deve ao verdadeiro Deus, segundo o costume sempre aceite na Igreja católica. Porque não deve deixar de ser adorado pelo facto de ter sido instituído por Cristo, o Senhor, para ser comido» (Ritual 3). O que se quer dizer com isto exprimiu-o concisamente João Paulo II numa nota do seu documento Dominicæ Coenæ, de 1980: «É de assinalar que o valor do culto e a força de santificação destas formas de devoção à Eucaristia (orações pessoais, exposições, bênçãos, procissões…) não dependem das próprias formas, mas, sobretudo, das atitudes interiores» (n. 3, nota 13). Não entram, portanto, na dinâmica da eficácia sacramental mas na da devoção cristã.
Por outro lado, e este é um dos magníficos acentos que João Paulo II pôs no documento citado, a adoração eucarística não é um momento extra-celebrativo, mas uma dimensão de qualquer aproximação ao mistério eucarístico como tal. Neste sentido, são significativas e profundas as seguintes afirmações: «Tal culto – o do mistério eucarístico – é dirigido a Deus Pai por meio de Jesus Cristo no Espírito Santo… No entanto, é o seu – o de Cristo – abaixamento voluntário, agradável ao Pai e glorificado com a ressurreição, o que, ao ser celebrado sacramentalmente junto com a ressurreição, nos leva à adoração do Redentor que se humulhou, tornando-Se obediente até à morte, e morte de cruz… Esta nossa adoração contém outra característica particular: está compenetrada com a grandeza dessa Morte Humana, na qual o mundo, isto é, cada um de nós, é amado até ao fim. Tal culto, tributado assim à Trindade… acompanha e enraiza-se antes de mais na celebração da liturgia eucarística. Mas deve além disso encher os nossos templos, inclusive, fora do horário das missas…» (Dominicæ Coenæ 3). A adoração eucarística fica assim como a atitude que corresponde, por parte dos ministros e dos fiéis, a toda a aproximação à Eucaristia, partindo – coisa importante – do momento e da motivação sacramentais.
Um exemplo particularmente expressivo e interessante do sentido da adoração intracelebrativa é a liturgia eucarística oriental. Quem negará que os orientais, embora não tendo uma prática de adoração do Santíssimo Sacramento na reserva – como nós –, manifestam em toda a sua liturgia um profundo espírito de adoração? Pensemos somente na Grande Entrada, no mistério da porta fechada, nos convites diaconais aos «santos»… Como em tantas outras coisas, a comparação em profundidade das duas tradições faz aparecer a sua coincidência básica.
Também os bispos franceses num documento de 1981, em razão do Congresso Eucarístico Internacional, depois de explicarem o sentido da adoração eucarística, terminam desta maneira: «Esta adoração desenvolveu-se a partir da Idade Média, no Ocidente, como acto independente fora da missa. Contudo, está enraízada na própria celebração eucarística, como o demonstram claramente os gestos de inclinação e genuflexão que ali se fazem. Toda a liturgia eucarística nos convida à adoração de Cristo, que permanece entre nós mediante o sacramento da sua presença fiel e real.
«Quando tantos homens buscam técnicas que lhes permitam alcançar o Absoluto, somos convidados a reconhecer esta proximidade de Cristo que nos oferece a sua presença e solicita a nossa hospitalidade» (n. V).
Esta consideração sobre a adoração eucarística interior à própria celebração merecia uma análise detalhada. Não se deveria procurar precisamente numa certa «banalização» da celebração a raiz da perda do sentido da adoração eucarística, também depois da celebração? A adoração eucarística nasceu na celebração, embora se tenha desenvolvido fora dela. Se se perde o sentido de adoração no interior da celebração, dificilmente se encontrará justificação para a promover fora dela… Talvez esta consideração possa ser interessante para rever as celebrações nas quais os sinais de referência a uma realidade transcendente quase se esfumam.
SDPL
