À Luz da Palavra A palavra deste domingo procura definir o caminho para encontrarmos a vida eterna. O evangelho sugere que essa vida plena não está no cumprimento de determinados ritos, mas no amor a Deus e aos irmãos e irmãs. Como exemplo, apresenta a figura de um samaritano – um herege, um infiel, segundo os padrões judaicos, mas que é capaz de estender a mão a um irmão caído na berma da estrada. A primeira leitura apresenta uma reflexão sobre o amor a Deus. Convida os crentes a fazer de Deus o centro da sua vida e a amá-lo de todo o coração. Como? Escutando a sua voz no íntimo do coração e percorrendo o caminho dos seus mandamentos. Na segunda leitura, Paulo apresenta-nos um hino que propõe Cristo como centro à volta do qual se constrói a história e a vida de cada crente. Se Cristo é o centro a partir do qual tudo se constrói, convém escutá-lo atentamente e fazer do amor a Deus e aos outros uma exigência fundamental da nossa caminhada.
Vamos aprofundar a mensagem do evangelho. A um doutor da lei que se quer justificar da sua visão estreita e exclusiva do “outro”, Jesus conta-lhe uma história fictícia, uma parábola. E é ao seu interlocutor, de ontem e de hoje, que compete tirar a conclusão da história e também a lição prática. “Vai e faz o mesmo” – diz Jesus a cada um dos que o querem seguir no ca-minho da vida plena. Podemos “ler” a parábola em diferentes perspectivas, mas vamos privilegiar aquela que nos pode iluminar sobre o valor das nossas relações humanas, em ordem à construção da nossa própria identidade e à dos outros. Vamos “ler” a parábola no sentido da inclusão e da humanização, dado que não se pode amar a Deus sem amar o próximo. Lucas coloca como questão fundamental, na procura de identidade, saber quem é o outro e que tipo de relação humana propõe Jesus. Na parábola, tanto os ladrões como o sacerdote e o levita desempenham papeis semelhantes. Os primeiros, “foram-se embora deixando o homem quase morto”; os segundos, deixaram a cena, distanciando-se do homem quase morto. E este homem é o único que permanece em cena sem identificação, sofrendo, contudo, diversas transformações. Primeiro, experimenta uma desagregação de si, ao ser espancado e roubado pelos ladrões; em seguida, adquire nova identidade, quando é tratado como gente pelo samaritano. Este homem, roubado e espancado, é a figura de um indivíduo excluído dos valores da vida. Porém, o samaritano, através das suas intervenções, faz dele um indivíduo importante, restituindo-lhe esses valores. É a relação de amor do samaritano que o torna próximo do homem sem identidade, restituindo-lha. Ele passa a ter um hoje e um amanhã.
O sacerdote e o levita não progridem na sua identidade, porque negam a relação ao homem quase morto. Ao invés, o samaritano, um excluído da comunidade de Israel, foi avaliado positivamente pelo doutor da lei, porque “foi bom para ele (o homem quase morto)”. Por isso, a sua identidade foi confirmada e a narrativa manifesta que ele tem um futuro assegurado. Podemos concluir que a realização concreta do processo de personalização e de integração da pessoa humana passa pela relação cordial, a qual determina a sua inclusão e é capaz de cumular as suas faltas. Este processo só é possível na medida em que somos capazes de passar da visão do próximo-objecto ao próximo-sujeito, ou, por outras palavras, a passagem de “quem devo eu amar?” a “como me vou eu tornar o próximo do outro?”
XV Domingo Comum
Dt 30,10-14; Sl 69 (68) ou 18; Cl 1,15-20; Lc 10,25-37
