Cartas dos Leitores Não sei se é uma máxima, ou uma invenção pessoal, o que vou dizer a seguir: “quem não vive para servir, não serve para viver”.
Parece sacrílega a afirmação, se interpretada à letra. De facto, não há nenhuma circunstância que possa fazer depender a vida de um critério meramente utilitário. A vida é muito mais do que isso, porque assenta numa dignidade original que lhe confere essência transcendental. O valor da vida deriva do facto de cada pessoa ter sido criada à imagem e semelhança de Deus. Tem, por isso mesmo, uma valoração ética e não só, pois se torna princípio e medida de todas as formulações éticas.
Sendo, porém, dom e tarefa, ela torna-nos cooperadores activos do plano criador de Deus. A forma como fomos criados e os termos utilizados pelo Criador nesse momento induzem-nos a pensar assim. Povoar a terra, crescer e multiplicar, são verbos fortes, transitivos, que significam e exigem dinamismo, acção.
É nesse contexto e com essa intenção que a afirmação é feita. Servir nada tem a ver com servilismo ou executar tarefas menores, que a maioria das pessoas tem relutância em fazer. Servir é também um verbo muito rico, transitivo, embora só os “pobres” o saibam conjugar em todos os tempos.
Não se fala de ânimo leve em servir e serviço, sem evocar e invocar uma palavra derivada: Servo!
Servo foi Aquele que, sendo rico, se despojou de tudo; sendo poderoso (o mais poderoso de todos os reis), se fez débil; O que, podendo ter legiões ao seu serviço, preferiu servir a todos; O que por direito poderia ter nascido num palácio, mas veio ao mundo num estábulo de animais; O que, podendo morrer medicado e assistido numa cama de hospital, tranquilizado com analgésicos, morreu pregado numa cruz.
Disse Ele um dia aos seus amigos, face à apetência que mostravam para ocupar os primeiros lugares: «Aquele que entre vós quiser ser o primeiro, torne-se servo de todos». O mais intrigante é que ostentava sempre uma grande alegria e entusiasmo, sobretudo nos momentos em que punha os seus dons e capacidades ao serviço daqueles que precisavam dele, e tantos foram!…
Dizia Ele que fazia a vontade do Pai, sempre que agia assim! E que esse trabalho sem descanso constituía a legitimidade da Sua vida e missão. Ele disse-o de uma maneira muito mais profunda: «O meu alimento é fazer a vontade do meu Pai» Nessa missão, encontrou coragem, discernimento e sentido para a Sua vida. A verdade, palavra tão difícil de praticar e pôr a nu nos dias de hoje, desenvolve-se nessa percepção e na consciência que Ele tem do serviço. «Se nasci, se vim ao mundo, foi para dar testemunho da verdade«. No seu afã de servir, nem sequer tinha tempo e lugar para “reclinar a cabeça”. O seu campo de acção era o homem todo e todos os homens, judeus ou gentios: «Tenho pena desta gente que anda por aí como ovelhas sem pastor».
A palavra serviço “mercenarizou-se”. Mais dia, menos dia, adquirirá outro sentido bem diferente daquele que lhe deu o Servo dos servos.
É preciso redescobrir a natureza do serviço, a verdade do servir, a alegria no servir!… Não há dúvida de que Jesus Cristo reorientou a óptica do serviço para a intenção com que Deus criou e ordenou o cosmos. Por causa do Homem e para o Homem se empenhou o Criador, associando a mais bela criatura ao Seu projecto. Rodeou o Homem de predicados: inteligência, liberdade, poder… e deu-lhe uma missão que acompanha a história, abrindo-lhe os horizontes do serviço ao dinamismo daqueles verbos a que atrás referi (povoar a terra, crescer, multiplicar).
O serviço é a forma, por excelência, de objectivar a comunhão, de promover a igual dignidade da pessoa humana, subjugando os bens materiais a esse desígnio, de acordo com o destino universal de todas as coisas criadas.
Neste contexto, tanto os bens materiais como as capacidades pessoais são património de todos e, por isso, cada um depende, para ser feliz e realizar-se, do empenhamento oblativo de cada um. Todos dependem do trabalho de cada um e cada um depende do trabalho de todos.
O melhor modelo para entendermos o que antecede, encontramo-lo na comunhão íntima do mistério de Deus. Na dádiva total das três pessoas umas às outras, na sua reciprocidade “pericorética” é que se realiza a Unidade. A Trindade é tanto mais perceptível e afirmativa quanto mais cada pessoa se distinguir dando-se, ou seja, servindo. Ao sair de si, para dar-se totalmente ao outro, a fim de que o outro seja, há um enriquecimento e um auto-conhecimento recíprocos que se traduz na comum união (Comunhão = Unidade). É um dar-se enriquecedor, uma espécie de aniquilamento (kenose), que se compraze na alegria do serviço; nesse ser para o outro, com o outro, no outro, por causa do outro…, cada pessoa encontra a sua razão de viver.
Como estamos longe desta óptica de servir!… Mas é sempre bom não esquecer que a felicidade passará por aí, se quisermos aderir ao Reino dos Céus que Cristo veio inaugurar. Reino dos poetas e dos utópicos? Mas onde é que nos têm conduzido as nossas certezas? Onde param a alegria e a felicidade do mundo?
Diác. António Poças
