A alma e os transportes

Educação e Ambiente Há um provérbio de índios americanos que diz: “Não julgues um homem antes de andares duas luas nos seus mocassins”.

E existe também uma estória, acerca de um milionário*, pessoa muito ocupada e que tinha o sonho de fazer um safari em África. Uma vez que, por cada dia em que não trabalhava pelo menos 12 horas, as suas empresas sofriam enormes prejuízos, decidiu fazer o safari em 48 horas. Não queria perder tempo e, dado que o dinheiro não era um problema, arranjou rapidamente os melhores guias e carregadores. Nas suas contas, o milionário contava com 12 horas de viagem até ao destino, 24 horas dedicadas ao safari (não era preciso dormir) e 12 horas para voltar ao seu país. À chegada, o grupo iniciou imediatamente a viagem, em jipes. Depois, prosseguiram a pé.

Os carregadores avançavam pela floresta a um ritmo que o irritava, por ser tão lento. Chegou mesmo a berrar com eles, mas tal atitude não teve qualquer efeito. A certa altura – ó céus! – os carregadores pararam. Pararam, sentaram-se e começaram a jogar um jogo tradicional que os fazia rir muito. Quase a espumar de raiva, o milionário encarregou o tradutor de os obrigar a voltar ao trabalho. Ameaçou, ofereceu, até implorou, mas… nada.

Por fim, pediu ao mesmo tradutor para lhes perguntar porque tinham parado. Quem sabe talvez assim percebesse o quê – e quanto – queriam os carregadores. Recebeu a resposta mais estranha da sua vida: os carregadores tinham explicado, calmamente, que, por terem andado tão depressa as suas almas tinham ficado para trás. E eles só voltariam a caminhar quando elas chegassem…

O provérbio e a estória dão que pensar.

Associo-os neste momento, em particular, às iniciativas dedicadas à mobilidade adotadas em muitos municípios portugueses. Mas afinal, o que é aquilo a que se chama “mobilidade sustentável”? Que significado tem? Será que significa o mesmo, para qualquer pessoa, em qualquer lugar?

Penso que a ideia de raiz está subjacente ao princípio de cada munícipe se deslocar diariamente de uma forma simultaneamente cómoda, rápida, económica e com o menor impacto ambiental possível. Para ir de casa para o trabalho, por exemplo. Ou para ir comprar pão, ao fim de semana.

Ora, a mobilidade de que o Sr. António precisa, para se deslocar diariamente de sua casa para a sua oficina de sapateiro (a 500 metros), é rápida, saudável e económica: faz o percurso a pé.

Mas o Sr. Mário, que diariamente percorre dezenas de quilómetros num carro a gasóleo – porque o trabalho de comercial assim o exige – , tem uma realidade diferente.

Por outro lado, de norte a sul, há milhares de passageiros que usam diariamente os comboios suburbanos no trajeto casa-emprego.

Será que no dia a dia podemos procurar alternativas à forma como nos deslocamos?

Será que, pessoalmente, já procurei informação e conheço todas as opções? Ou será que já ando há algum tempo a pensar partilhar boleia com aquele colega do trabalho mas ainda não falámos sobre o assunto?

*Estória aqui adaptada, a partir do texto de Fátima Marques, “À espera da alma” que pode ser consultado em http://encontroscalma.blogspot.pt/2012/03/normal-0-21-false-false-false-pt-x-none.html.