À Luz da Palavra – XXIII Domingo Comum – Ano C A liturgia da palavra deste domingo insiste na ideia de que todos necessitamos da assistência do Espírito Santo para discernirmos sobre a nossa vida, como baptizados, e tomarmos as melhores decisões, aquelas que mais se coadunam com o Evangelho com o qual nos comprometemos.
Na primeira leitura, o autor do livro da Sabedoria, depois de uma breve reflexão sobre a nossa incapacidade de pensar e de compreender os desígnios de Deus, no dia-a-dia, para nós mesmos e para a humanidade, conclui: “Quem poderá conhecer, Senhor, os vossos desígnios, se vós não lhe dais a sabedoria, e não lhe enviais o vosso espírito santo?”. De facto, sem a preciosa ajuda do Espírito Santo quem poderá realizar a sério o compromisso do seu baptismo e escalar a montanha da santidade?
No evangelho, Jesus Cristo é peremptório. Há só uma condição para o seguir: ter preferência por Ele, no amor, isto é, colocá-lo acima do pai, da mãe, do marido, da esposa, dos irmãos e dos filhos, e tomar a cruz de cada dia, seguindo-o, na qualidade de discípulo e discípula. Esta exigência refere-se a cada um dos baptizados e não se dirige apenas às pessoas especialmente consagradas a Deus, como às vezes pensamos. Por isso, antes de tomar a decisão de receber o baptismo ou de o pedir para os seus filhos, a pessoa deve reflectir e calcular as suas forças, para ver se é capaz de assumir tal responsabilidade. É como aquele que, segundo a parábola de Jesus, “antes de construir uma torre se senta primeiro a calcular a despesa, para ver se tem com que terminá-la. Não suceda que se mostre incapaz de a concluir. Ou como o rei, que se senta primeiro a considerar se, com dez mil soldados, é capaz de se opor ao outro rei que vem contra ele com vinte mil”. Daí a necessidade de recorrermos à ajuda do Espírito Santo, por causa da debilidade do nosso pen-samento e da incoerência nas nossas opções.
Na segunda leitura, Paulo, num pequeno bilhete que escreveu a Filémon, sugere-lhe uma nova atitude face ao seu antigo escravo Onésimo, porque este, pelo baptismo, se tornou seu irmão em Cristo. O conteúdo deste bilhete mostra-nos que nem sempre é fácil viver as exigências baptismais, segundo os requisitos de Cristo. Contudo, a leitura atenta, meditativa e orante da palavra de Deus, que nos dá a sabedoria e nos conduz à permanente revisão de vida, é luz e força para nos deixarmos construir pelo Espírito Santo, até à plena identificação com Jesus Cristo. Jamais podemos desistir desta tarefa, apesar das nossas fraquezas.
A vivência radical do Evangelho não se compadece com a existência de cristãos e cristãs mornos, apáticos e infiéis, que tentam viver, ao mesmo tempo, para Deus e para si mesmos. Manifestam, assim, a sua incapacidade de colocar em segundo lugar todos os bens, por causa do único e grande amor que é Cristo, condição única para realizar a vida baptismal com que se comprometeram. Estes são os cristãos que desacreditam a Igreja e que não tornam cativante o rosto de Cristo para os mais novos e para aqueles que ainda o não conhecem.
XXIII Domingo Comum: Sb 9,13-19; Sl 90 (89); Flm 9b-10.12-17; Lc 14,25-33
Deolinda Serralheiro
