Questões Sociais Esta pergunta vem sendo feita por muita gente, começando pelas oposições ao actual governo e ao anterior. A pergunta contém a afirmação tácita de que a austeridade é uma opção dos governos. E, perante ela, o povo decide se vale a pena ou não. Este posicionamento, bastante difundido, esquece que os governos e o povo não dispõem de margem de manobra para evitarem a austeridade: No caso de aceitarem a que foi acordada com a «Troika», sabem que não existem garantias de que valerá a pena; no caso de recusarem esse acordo, sabem que os juros da dívida do país subiriam para taxas altíssimas, sabem também que perderíamos o crédito internacional e que, muito provavelmente, aconteceria uma hecatombe social e económica. A austeridade acordada com a «Troika» é má e poderá agravar-se por muito tempo; a austeridade à margem da «Troika», ou de um outro acordo semelhante, é péssima, não controlável e precipitaria, mais rapidamente, a «bancarrota» do país.
Os opositores ao Memorando, e até algumas forças e pessoas que o aceitam, defendem que uma certa austeridade poderá ser inevitável. Mas contestam que à austeridade se siga mais austeridade, sem se saber onde se irá chegar. Entendem, muito acertadamente, que ela não se pode dissociar do crescimento económico nem de uma repartição de rendimentos mais justa; é tão evidente esta afirmação que praticamente não suscita discordâncias. Contudo, o problema em presença é bem diferente da defesa, ou não, desta evidência; o problema consiste no facto de, por enquanto, não haver dinheiro nem crédito nem oportunidades de negócio nem empresários suficientes para a inflexão do ciclo da «austeridade em cima de austeridade».
É claro que a concepção do Memorando podia ter sido diferente, mais favorável ao crescimento e à justa repartição de rendimentos; por isso, vale a pena lutar pela sua melhoria. Não se esqueça, porém, que tal melhoria depende fundamentalmente do nosso trabalho, criatividade e sentido de justiça. Daqui resultam alguns imperativos cívicos e éticos, para todos nós: o cumprimento do Memorando; o contributo para que ele seja melhorado; e uma acção colectiva cooperante para que se atenuarem os seus efeitos nefastos, particularmente nas pessoas mais vulneráveis, e para que se torne dispensável. Pouco adianta perguntarmos se a austeridade vale a pena; justifica-se, sim, dignificá-la e contribuir para a sua atenuação.
