O acordo ortográfico tem provocado alguns constrangimentos neste início de ano lectivo. De repente, os alunos, que comunicam entre si numa linguagem cifrada, escrita a uma velocidade louca, por dedos que parecem mover-se autónoma e automaticamente, pois os seus “donos” são capazes de conversar connosco, enquanto, numa situação bidimensional, enviam sms aos amigos que estão do outro lado da rua – e esta frase tão longa bem precisa que retomemos o seu sujeito – os alunos, dizia eu, exclamam horrorizados “Fica tão mal, professora!”, ou, então, lêem palavras com outra acentuação, desconhecendo, portanto, o seu significado. Aconteceu, por exemplo, com “percepção” e com “acepção”. De repente, estes alunos que nos dizem “Esqueça, professora!”, e que ficam surpreendidos quando lhes lembramos – ou ensinamos?!!! – que “Esqueça!” é um enunciado, um pedido, que enforma de uma certa rudeza, ou de uma certa familiaridade inadequada à sala de aula, e que, na relação com os mais velhos e com os professores, se deve usar outro nível de língua e, logo, uma certa delicadeza, de repente, dizia eu, estes alunos querem manter a grafia que sempre conheceram e cuja razão de existir eles percebem. É pena é que muitos destes alunos dêem imensos erros, e escrevem, por exemplo, “com certeza” e “de repente” como se fossem uma palavra e não duas!
Nos últimos tempos, tenho lido muitos jornais e revistas. Alguns artigos prendem-me a atenção, doutros leio apenas os títulos. Há alturas em que estou mais sensível à política e outras em que me sensibilizo com casos particulares, destacados pelos jornalistas, quer pelo contributo de determinada pessoa para a arte, para a cultura ou para a ciência, quer pelo seu exemplo de vida. É certo que as notícias na televisão não me chamam a atenção, ou melhor, a forma como são dadas as informações cada vez me afasta mais da chamada “caixa mágica” que mudou o mundo.
Tudo isto vem a propósito de uma notícia que li neste fim-de-semana. Como me pode ter passado despercebido o facto de uma aluna de 18 anos ter discursado ao lado do Presidente da República, nas comemorações do 5 de Outubro?! Deveria ter eu estado atenta à situação, sobretudo pelo facto de a referida rapariga ter proferido um discurso de incentivo aos seus pares. E logo agora que estou a estudar o texto argumentativo com os meus alunos! Que melhor exemplo do que o de uma aluna que incitou os jovens da sua idade a abraçarem os “valores de uma cidadania participativa”, considerando que “o caminho é só um – Educação e um Ensino de qualidade para todos preferencialmente gratuito, obrigatoriamente rigoroso e exigente, para professores e estudantes, tornando-se assim mais estimulante e fonte de desenvolvimento humano e social”. Ana Lídia Sampaio Dias, do município da Maia, disse também que “(…) a escola e a universidade podem ser ainda melhores, enquanto espaços de formação e qualificação dos cidadãos, permitindo-lhes adquirir para a sua vida pessoal e colectiva, conhecimentos e ferramentas de trabalho que lhes darão as melhores garantias de inclusão e integração social e profissional”. Questionou ainda: “Se soubermos e quisermos ser exigentes, se não prescindirmos de participar na vida da comunidade local em que vivemos e na comunidade nacional a que pertencemos, se formos responsavelmente críticos e construtivos, se não temermos o trabalho e se não tivermos medo de sentir orgulho de Portugal, da sua História e da nossa herança cultural e se não tivermos medo de existir, porque havemos de temer o futuro?…” E rematou com um “Termino dando graças a Deus pela família e pelo país onde nasci!…” e um “Viva PORTUGAL!…”1
Relendo textos de alunos meus, mais ou menos recentes, emociono-me, pois revejo neles este afã de construção, este compromisso de acção e esta motivação para mudar o mundo!
1 Texto completo no sítio da presidência da República: http://www.presidencia.pt/?idc=22&idi=58121
Ana Lídia Sampaio Dias foi a vencedora do concurso sobre os 100 anos da República “A República – o meu discurso em 2010”
