A camisola e o contentor

Educação e Ambiente A experiência recente de partilhar uma casa fez-me refletir de modo particular acerca dos meus hábitos.

Não é a primeira vez que partilho alojamento com outras pessoas, e de diferentes nacionalidades. Mas é a primeira vez que, de alguma forma, isso se traduz numa vivência diária estranha – difícil, em alguns aspetos.

Se eu tenho que partilhar o mesmo contentor do lixo, o que dizer acerca daquela parte que pode(ria) ser reciclada?

O que dizer da confusão que se instala quando ao lixo orgânico (restos de comida) são adicionadas embalagens de plástico “aos montes”?

O que dizer da falta de fé no sistema de reciclagem, transmitida por um colega de casa?

O que dizer da minha forma habitual de atuar? Da minha convicção interior de que, mesmo sendo um grãozinho de areia num enorme areal, eu tenho um papel a desempenhar?

Penso que o grande desafio é, acima de tudo, respeitar o outro. Respeitá-lo na sua vivênca, na sua cultura, nas suas convicções. Partilhar opiniões e dar a conhecer o meu ponto de vista, as minhas motivações, mas sempre dando espaço para a abertura e o diálogo. Não, não é fácil.

Mas diria que não é impossível.

Talvez um dia o meu colega de casa – oriundo de um país onde a reciclagem aparentemente não é hábito corrente – veja com outros olhos as embalagens de plástico que, por ora, têm o caixote do lixo como destino.

As caixas que embalam o ananás aos pedaços, as uvas importadas do Brasil*, os bifes de frango e os vegetais, aos quais se juntam por vezes garrafas de plástico vazias, podem ser “fonte de matéria prima”.

Cada plástico tem uma composição diferente e, como tal, terá um uso final – depois de encaminhado para reciclagem – , diferente. Consoante o caso, poderá servir para o fabrico de calções, calças ou camisolas, mobiliário, ou para o fabrico de estofos usados na indústria automóvel, por exemplo. O PET (abreviatura de Politereftalato de Etileno), quando reciclado, é usado no enchimento de peluches. Outros tipos de plástico, como o PEAD (polietileno de alta densidade) e o PVC (policloreto de vinilo), após reciclagem, são utilizados no fabrico de tubagens.

Como exemplo recente, podemos aqui relembrar o equipamento utilizado pela selecção portuguesa no Euro 2012, feito a partir de uma média de 13 garrafas de plástico: os calções fabricados a partir de poliéster 100% reciclado, e o tecido das camisolas com 96% deste material. Como? Bom, as garrafas de plástico são derretidas para produzir novos fios, que são posteriormente convertidos no tecido que permite criar os equipamentos. Este processo permite poupar matéria-prima e, simultaneamente, reduzir em cerca de 30% o consumo de energia, comparativamente com o fabrico de poliéster virgem.

Cabe a cada um de nós, refletir se lhe faz ou não sentido separar e reciclar. Já agora, talvez valha a pena relembrar a matéria prima que está na origem dos plásticos: o petróleo**.

*Na cidade inglesa onde me encontro temporariamente, a fruta importada chega acondicionada de forma bastante “protetora”, numa embalagem de plástico dupla.

**100 toneladas de plástico reciclado evitam a extracção de 1 tonelada de petróleo.