“A comunidade assuma o serviço aos seus pobres”

Entrevista a Pe João Gonçalves, vigário para a Pastoral Geral A Igreja de Aveiro escolheu como lema para 2007/08 a frase “O serviço aos mais pobres é sinal visível e expressivo da verdadeira Igreja de Jesus Cristo”. A atenção aos pobres é prioritária para os cristãos. Mas não basta “descobrir” situações de pobreza; é preciso encontrar “caminhos de solução”, realça Pe João Gonçalves.

Em entrevista ao Correio do Vouga, o vigário para a Pastoral Geral revela que vai ser criado um organismo para apoiar as IPSS da Igreja e que está a ser preparado um certame que mostre o que a Igreja faz no campo social.

Correio do Vouga – Qual é o grande objectivo pastoral da Diocese de Aveiro para 2007/08, para os cristãos em geral?

Pe João Gonçalves – Em 2007/08 pretende-se que as pessoas descubram situações de pobreza, porventura novas situações de pobreza. Sugere-se que se fale de outras formas de pobreza, de que habitualmente não se fala, que vejam outras situações de exclusão… Habitualmente, falamos dos sem-abrigo, dos sem roupa, dos doentes, mas não falamos dos presos, dos ex-presos, da família dos presos, dos ciganos, dos alcoólicos, das famílias em dificuldade, da prostituição, dos imigrantes sem papéis… Estas áreas não são novas, mas estão meio escondidas, tal como existe a pobreza envergonhada. É preciso estarmos atentos a isso.

O que pode um cristão comum fazer?

O cristão não deve ficar apenas no descobrir. Isso é fazer de sociólogo. É preciso descobrir os pontos frágeis da sociedade, da sua comunidade concreta, da sua rua, do seu bairro, da sua paróquia mas depois, em grupo, tentar encontrar hipóteses de solução. Como hoje em dia, e cada vez mais, as coisas se resolvem em rede, que as pessoas falem com outras pessoas, que se juntem a outros grupos, as comunidades com outras comunidades, para que em rede e de mãos dadas possam encontrar-se caminhos de solução. Embora saibamos que “pobres sempre os teremos”, há alguma coisa que sempre podemos fazer.

Este ano os serviços da Diocese preocuparam-se em elencar, com alguma exaustão, as datas e actividades dos diversos organismos (grupos, arciprestados e paróquias, serviços diocesanos…), editadas conjuntamente com a mensagem de D. António Francisco e o plano pastoral propriamente dito conforme foi apresentado pelo Pe. Rui Barnabé, na assembleia de 5 de Outubro. O que destaca neste volume, que ao longo do ano estará muitas vezes, certamente, nas mãos dos párocos e cristãos mais empenhados?

Há uma nota importantíssima a destacar desta calendarização: é de que todos nós, em sintonia eclesial, tomemos como de todos, aquilo que é de cada um ou de cada grupo; em Igreja deve ser assim que se trabalha; para amar é preciso conhecer; só sabendo o que os outros fazem, é que cada um se sente corresponsável, ama e estimula o trabalho dos outros. Por outro lado, evitam-se atropelos de datas, e sugere que todos se programem com tempo…

Mas, de concreto, e em poucas palavras, o que nos diz o Plano, agora nas nossas mãos?

Uma das linhas de força é que a comunidade enquanto tal assuma o serviço aos seus pobres. Não sejam só os vicentinos, os grupos cáritas, os visitadores de doentes, mas os próprios conselhos pastorais paroquiais – a estrutura pastoral mais abrangente da paróquia – a assumir o serviço aos mais pobres. Se cada comunidade cuidar dos seus pobres, já muito se fará.

Por outro lado, o Plano Pastoral não tem grandes teorias nem grandes desenvolvimentos teológicos; afirma o essencial; dele, aliás, faz parte integrante a Mensagem de Abertura do nosso Bispo.

Tem indicações, princípios e levanta questões… Mas tem a vantagem de pedir às pessoas que desçam ao concreto, que façam as suas leituras, dêem respostas e, depois, possam fazer uma avaliação permanente.

É importante a avaliação?

Se ficamos pelo fazer sem avaliar, não sabemos se as coisas foram feitas ou se foram bem feitas. Sugerimos muito fortemente que as pessoas e os grupos tenham a capacidade de avaliar o trabalho que vai sendo feito ao longo do ano e que se deixem avaliar por outros grupos e pela comunidade.

Do ponto de vista do vigário para a pastoral o que será uma avaliação positiva no final do ano?

Será termos visto o que há de pobreza e o que há de tentativas de esforço de resposta. Outro aspecto positivo serão as novas sinergias que daí possam brotar. Estou convencido de que, se este trabalho for verdadeiramente assumido, iremos chegar ao fim e concluir que diante do muito que está por fazer, “agora é que vamos verdadeiramente começar, porque até agora nada fizemos”, como diria S. Francisco de Assis. Certamente que isto vai trazer às pessoas novas preocupações, vão surgir novos processos de resposta. Espero que as pessoas sejam muito inventivas, levem a preocupação com os pobres bem a sério. Não podemos esquecer que a caridade expressa e explicita a nossa fé cristã.

Destaca alguma data em 2007/08?

Não destaco datas, mas atitudes ou realizações. Por exemplo, a concretização de uma plataforma para as IPSS e um certame sobre a acção social da Diocese, nas suas múltiplas associações.

Em que consiste a plataforma?

Passa sobretudo por uma organização, podemos chamar-lhe secretariado ou algo idêntico, que possa dar uma atenção maior às IPSS (instituições particulares de solidariedade social) da Diocese.

Que finalidades terá esse organismo?

A sua acção passará muito por sublinhar a identidade das IPSS ligadas à Igreja, para que mantenham o seu cariz cristão, como também pela formação das pessoas que as integram ou até, porventura, pela resposta a algumas questões de ordem jurídico-legal. Terá pessoas competentes, que possam prestar esse serviço às IPSS da Igreja.

E quanto ao certame…

O certame ou feira alargada – vamos chamar-lhe assim – de todas as IPSS da Igreja e de todos os grupos da pastoral social, pretende dar uma grande visibilidade ao que se vai fazendo, com a finalidade de nos conhecermos uns aos outros e nos apoiarmos mutuamente. Servirá também, porventura, para mostrar-mos à sociedade da nossa Diocese que, afinal, a Igreja tem respostas capazes, e para deixar muitas interrogações perante o muito que há a fazer. Nesta área faz-se sempre pouco, ainda que se faça muito.

Há data para essa feira?

Ainda não há. Esperamos que seja este ano pastoral. Se a iniciativa se apresentar com um volume demasiado grande, podemos adiá-la, de forma a ser feita com a dignidade e a visibilidade que queremos que tenha.

Nota da Direcção: A partir da próxima semana, em linha com a programação pastoral, o Correio do Vouga apresentará semanalmente um serviço, instituição ou grupo da Diocese de Aveiro ligado à acção social.