A corajosa humildade para assumir os erros, pessoais ou institucionais, é um caminho de redenção. Múltiplas foram as situações de encontro com o Senhor Jesus que redundaram precisamente nisso: reconhecimento da falta, predisposição de remediar até onde é possível e consequente alegria de uma vida recomeçada.
Enfrentar os problemas que, de repetidos e pela responsabilidade de quem os cria, são uma extensa mancha para toda a Igreja, é um desafio à serenidade, à lucidez e à firmeza de quem tem o maior peso na condução do Povo de Deus. E Bento XVI, peregrino do Evangelho, não volta as costas a este desafio. Na esteira do seu antecessor, enfrenta corajosamente a questão da pedofilia na Igreja da América.
Em marcha está o movimento de reposição da justiça, na medida do possível. Mas era preciso reconhecer, confessar, com humildade e publicamente, quanto esta falta faz sangrar o Corpo de Cristo; pedir perdão aos que sentiram, no cerne da sua dignidade, os efeitos devastadores desta perversão. E, sem espectáculo mas com ousadia, o Papa fê-lo diante de todo o Mundo.
Por várias vezes, a diversos auditórios, e sempre aos olhos da Humanidade inteira, o Santo Padre reconheceu quanto dano estas atitudes trouxeram às pessoas e à Família dos Católicos, deixou claras as medidas de saneamento a implementar, para evitar e superar repetições no futuro. Mas, sobretudo, acolheu um simbólico grupo representativo das vítimas, para lhes manifestar a consternação e lhes significar o apoio na recuperação da sua dignidade.
A história registará, como não pode deixar de ser, estas marcas de pecado, que a Igreja, porque humana nos membros que a constituem, carrega consigo. Mas não deixará também de registar o gesto, a um tempo arrojado e humilde, do Pastor Universal, que assim deseja cuidar de todas as ovelhas do rebanho, para corrigir umas, para alentar outras.
A Igreja da América, estimulada pelo sucessor de Pedro, já assumira, por via dos processos judiciais, o ónus do escândalo vergonhoso. Mas faltava, de facto, este gesto público para recriar o clima de verdade e confiança indispensável. Ele chegou! E ainda bem. Não é, por si só, toda a reparação necessária. Mas, sem ele, qualquer reparação poderia transformar-se em “negócio” pouco digno. Até porque o hediondo oportunismo não este ausente de todo este processo.
Estamos mais tranquilos. Conscientes e confessos deste errado segmento da nossa história como Igreja, podemos agora ousar, de novo, passos de purificação da memória, sempre tonificantes de caminhos ousados a percorrer. Bem haja o Pastor que assim conduz o seu rebanho!
