Em Setembro de 2010, o cientista inglês Stephen Hawking publicou o livro ““The Grand Design”, afirmando que Deus não é necessário para a criação do Universo e que o Big Bang foi uma consequência inevitável das leis da física. O livro provocou os mais diversos comentários, quer de regozijo, da parte de ateus, quer de alertas para as indevidas afirmações teológicas a partir de dados da ciência, da parte de cientistas e teólogos.
Numa altura em que Bento XVI convida a “perscrutar o céu” e a descobrir a “racionalidade eterna” do universo (ver página 7), a entrevista ao padre jesuíta e cientista Sabino Maffeo, membro da Specola Vaticana (observatório astronómico dependente da Santa Sé), ajuda a distinguir campos para evitar confusões. A entrevista foi feita por Antonio Gaspari e Maurizio Tripi, da agência de notícias católica Zenit. Na imagem, Sabino Maffeo com João Paulo II, numa foto gentilmente cedida pelo entrevistado ao “Correio do Vouga”.
CORREIO DO VOUGA – Stephen Hawking afirma que Deus não serve para explicar o nascimento do universo, porque o Big Bang foi uma consequência inevitável das leis da física? Qual a sua opinião, P.e Sabino Maffeo?
SABINO MAFFEO: A razão humana pode enriquecer-se com conhecimentos de diferentes graus, quer dizer, em três níveis: com base na experiência sensível, mediante os instrumentos proporcionados pela física, a química, a biologia e a matemática; com base ao raciocínio filosófico, que não utiliza instrumentos materiais, mas que argumenta sobre a realidade seguindo as exigências inatas da razão; e com base na Revelação por parte de Deus. Tem-se assim o conhecimento de coisas novas, devido à fé sobrenatural que é um dom que Deus quer dar a todos.
Nota importante: esses três níveis não são compartimentos fechados no sentido em que quando a mente humana trabalha no primeiro nível, e estuda por exemplo o olho humano, ou a estrutura de um favo de mel, ou a ordem geométrica de uma teia de aranha e tantas outras coisas maravilhosas, não pode deixar de maravilhar-se perante a ordem que há na natureza e passar ao nível superior de conhecimento para se perguntar como explicar esta ordem, com o acaso ou com a finalidade devida a uma mente ordenadora, e daqui passar ao terceiro nível para encontrar confirmação na fé pelo que a revelação nos diz.
Permanecendo no primeiro nível, não se pode dizer nada sobre Deus, nem que existe nem que não existe. A busca de Deus – a sua existência, a criação do mundo, etc. – não entra no primeiro nível porque não é uma realidade susceptível de ser experimentada pelos sentidos.
O erro de Hawking é duplo: raciocina sobre Deus como se fosse uma realidade que se pode descobrir com argumentos da física e da matemática, que são instrumentos do primeiro nível; tem um conceito erróneo de criação ao falar de um Deus considerado por alguns crentes como apenas necessário para dar início ao mundo, que, uma vez criado, vai em frente por si só (um Deus relojoeiro).
Qual o conceito de criação a partir da fé?
Na realidade, a criação é um acto contínuo de Deus, que deu início ao mundo do nada e o mantém no ser (continua a criá-lo) em todos os instantes para que continue a existir (criação contínua). Tudo isso podemos dizer que o sabemos pela razão, mas não só, porque esta é muitíssimo ajudada pela fé. Só pela fé sabemos que o mundo não foi criado “ab aeterno”, mas no tempo.
Pode indicar-nos quais são as razões pelas quais crê na existência de um criador?
Convencem-me as Vias de São Tomás, que, em princípio, deveriam bastar para convencer só a razão, mas, de facto, dada a debilidade causada pelo pecado original, não convencem como “dois mais dois são quatro”.
Neste sentido, o Catecismo da Igreja Católica, nos números 36 e 37, sustenta que “Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido com certeza com a luz natural da razão humana, partindo das coisas criadas”, citando o I Concílio Vaticano.
O nosso planeta é o único que tem vida no sistema solar. E está povoado não só por flora e fauna mas também por seres humanos. Como explica esta unicidade?
Ninguém sabe como se originou a vida. Nasceu por si só ou foi necessária uma intervenção de Deus? Os ateus devem dizer que nasceu por si só, mas não têm provas. Estas aparecerão só no dia em que a vida surgir no laboratório a partir de matéria não viva.
Eu, crente, tenho duas possibilidades: a vida apareceu por si só, ou por intervenção de Deus. Mas no que diz respeito ao ser humano, a fé diz-me que na transição do não homem para o homem, é necessária a intervenção de Deus. Todo o ser humano é criatura de Deus.
A respeito da vida noutros corpos do sistema solar, parece demonstrado que suas condições físicas e químicas não permitem a vida que conhecemos. Talvez tenha sido possível em Marte, em tempos muito remotos, o que se poderá demonstrar com futuras explorações do planeta. Permanece sempre, no entanto, o problema de saber se a vida veio por si só ou por intervenção de Deus.
Algumas pessoas pensam que um crente não pode fazer nem falar de ciência. Pode dar algum exemplo de cientistas crentes?
Quase todos os observatórios astronómicos italianos tiveram sua origem em seminários e ordens religiosas e eram dirigidos por astrónomos que eram também sacerdotes. Pode-se ver informação sobre isso no sítio http://www.disf.org/altriTesti/Chinnici.asp. Um exemplo actual é a Specola Vaticana, onde os astrónomos são todos padres jesuítas. Pode-se ver também o livro de Ivan Tagliaferri e Elio Gentili: “Scienza e Fede – I Protagonisti” (De Agostini), de cerca de 300 páginas, com centenas de cientistas crentes. Vêm-me à mente alguns dos cientistas de fama mundial: Nicola Cabibbo, físico; Ennio de Giorgi, matemático; Max Plank, físico; Johan Gregor Mendel, geneticista; e depois Galileo Galileo; Isaac Newton; Kepler; Copérnico; Lemaître; Antonio Stoppani, e Angelo Secchi.
