Porque o tempo é ininterrupto e um novo ano é uma convenção de calendário, chegámos a 2009 com a herança de 2008 e a palavra crise cansativamente omnipresente.
Diz a sabedoria chinesa que crise significa perigo, mas também oportunidade. É por isso que 2008 terá sido um tempo com coisas para esquecer, mas não um ano para esquecer. Pelo contrário, devemos tirar lições para o futuro.
A crise pode ser explicada por muitas razões a que chamaria paramétricas, desde as taxas de juro, ao nível de crédito ou de endividamento ou de outras variáveis da macro e da micro economia. Tudo isto é verdade, mas a primeira e decisiva causa da crise reside na vertente comportamental resultante de uma forte erosão ética. Vivemos um tempo em que emergiram escancaradamente as consequências de um mundo em que a fronteira entre o bem e o mal se dilui numa espécie de uma porosa “pedra-pomes” axiológica.
Conhecem-se, agora, urbi et orbi situações indesejáveis e queda de falsos ícones resultantes da deficiente conjugação entre direitos e deveres, do enfraquecimento do sentido de responsabilidade e da incapacidade de os poderes públicos res-ponderem em plenitude às exigências da “hipoteca social” que impende sobre todo e qualquer bem económico ou social.
Em 2008 percebeu-se, de um modo flagrante, que nunca se deve confundir a ideia da ética com a ideia da moralidade. Ética é cada um confrontar-se com o seu dever. Moralidade é cada um ocupar-se com o dever dos outros. Muitos pregam a dita moralidade (para os outros) e esquecem o exemplo e a autenticidade dos valores quando se trata de praticarem o que aos outros exigem. Por palavras diferentes: não basta uma ética da terceira pessoa, é imprescindível uma ética da primeira pessoa.
Ficou também provado com esta crise global que não bastam as leis se a acção das pessoas não radicar em princípios éticos sólidos. É que nenhuma lei proíbe o egoísmo, a ganância, a mentira, o desprezo, o ódio, a malvadez, como infelizmente se constata. 2008 mostra também os custos humanos e sociais de se olhar para as pessoas como meios ou instrumentos e não como fins, e de se terem rompido os limites da prudência e do risco.
Ainda a nível de um mundo em que se globaliza mais facilmente o mal do que o bem, em 2008 também não pode ser esquecida a divergência crescente entre o que se proclama e o que depois se faz ou acontece. Por exemplo, fala-se até à exaustão de coesão social, mas assiste-se a despudoradas desigualdades e a uma lógica de fragmentação social. Discursa-se pelos pobres, mas vem-se subsidiando ou apoiando quem não precisa. Elogia-se a solidariedade, mas cai-se na tentação de premiar o egoísmo. Fala-se sem limites da educação dos direitos mas esboroa-se a aprendizagem cívica dos deveres, a educação do carácter e a cultura da responsabilidade. Esfuma-se a respeitabilidade pelo esforço, sabedoria e experiência, mas acentua-se o prémio da esperteza e do arrivismo.
Bento XVI chamou a atenção na sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz – significativamente intitulada “Combater a pobreza, construir a paz” – para a ambivalência e o carácter não necessariamente determinista da globalização. Refere que se é certo que esta vem produzindo benefícios à escala mundial (embora nem sempre equitativamente repartidos), também gera novos fenómenos de risco e dependência e situações de perversão através de uma preferência por “lógicas de brevíssimo prazo desprovidas de consideração pelo bem comum a longo prazo”.
A crise oficialmente declarada em 2008 deveria também servir para sentenciar os paraísos fiscais a uma definitiva condenação. Com eles a corrupção medrou e o terrorismo, a droga e o armamento progrediram. Os paraísos fiscais são a vergonha despudorada de que o crime compensa, a esperteza vence, o golpe rende. No entanto, a comunidade internacional e a diplomacia hipócrita fingem fechar o postigo e deixam escancarada a porta.
Em síntese, dêem-se as voltas que se derem, não há “soluções técnicas” para “défices éticos”. Sob pena de recidivas cada vez mais dolorosas…
