A escrita é um dispositivo de procura

O escritor portuense Mário Cláudio (autor de “Tocata para Dois Clarins”, “Peregrinação de Barnabé das Índias”, “Camilo Broca”, “Tiago Veiga”, entre outros títulos de ficção, poesia e teatro) esteve no Centro Universitário, a convite do Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro (ISCRA) para responder à questão “Que Deus se esconde na literatura?” “Não se esconde. Revela-se”, respondeu de rajada. A tertúlia, na noite de 1 de fevereiro, foi moderada pela professora universitária Cristina Carrington. Aqui ficam as principais ideias de Mário Cláudio numa recolha de Jorge Pires Ferreira.

Lugar de revelação

Deus não se esconde na literatura. Revela-se. A literatura é lugar da fé e de Deus – respondo de imediato. Não se esconde em parte nenhuma. Mas revela-se na literatura como se releva em muitos outros lugares e situações.

Por camadas

Deus releva-se em termos de palimpsesto, como texto antigo sobre o qual foi escrito outro texto. É necessário eliminar o mais recente para descobrir o mais antigo. O que escrevo anda sempre em torno de um texto precedente, um texto que não existe em mim, mas que vem ter comigo. Na minha escrita há uma busca que não é consciente nem programada para chegar ao texto que está para lá do texto. Quanto mais me aproximo, mais próximo estou de Deus.

Escada de Jacob

A escrita é uma forma de meditação, de subida, como a escada de Jacob, mas nos dois sentidos: sobe-se para chegar a Deus e desce-se em atitude de humildade, prostração. A escada é uma escada de eus até chegar ao Eu superior, Eu maiúsculo, que é Deus. Ao subir, procuro a pujança, a luz, o triunfo, o esplendor. Ao descer, imerjo na escuridão, na “noite escura”. Há dois paradigmas: o barroco, do triunfo, e o românico-clássico, do despojamento.

“Escreviver”

Escrever é, como dizia David Mourão-Ferreira, “escreviver”. Escrevo para recuperar a inocência perdida. É uma atitude religiosa. Quem escreve ou cria através das artes o que procura, no fundo, é descobrir-se antes do pecado original, recolocar-se no paraíso, revelar-se na dimensão adâmica.

Procura

A escrita é um dispositivo de procura. Não há escrita sem solidão, isolamento, uma certa contemplação da vida similar à de quem ingressa numa ordem religiosa. Significa isso um enfeudamento da escrita? Não. Não é por ser apologética e publicitária que a literatura aproxima de Deus. O que faz dela arte é o talento, não a matéria religiosa. Há muita escrita religiosa que não abre à dimensão divina. E há muita escrita não religiosa que nos leva a dizer: “Este anda à procura de Deus”.

Tentação

Há, por outro lado, uma tentação panteísta. Através da escrita revelamos o mundo e não nos conseguimos distinguir de Deus. Estamos, por assim dizer, no “milieu divin”. A distinção entre nós e Deus é praticamente invisível.

Lermo-nos

Escrever é ler, é lermo-nos, é ler o mundo. Ler é rescrever o que está escrito. Não podemos passar sem o texto, como Teresa de Ávila (que escrevia em cima de uma mula; não sei como era possível, porque os manuscritos têm uma caligrafia perfeitíssima) ou Jacques Prévert, que falava da “tristeza dos iletrados”, dos que não têm para onde olhar, olham mas não veem, o seu olhar dissolve-se na paisagem.

Lugar do outro

O grande esforço que temos de fazer sempre é colocarmo-nos no lugar do outro. É mais fácil citar o catecismo, como no caso dos divorciados recasados, que não podem comungar.

Texto

Deus existe sem texto. Não há religiões que não tenham textos. Deus revela-se no texto, mas está para além do texto. O género humano vai deixar de existir, os textos vão desaparecer. Deus vai continuar.

Escritores ateus?

Não acredito em escritores ateus. Insurgem-se contra Deus. Afirmam presuntivamente que Deus não existe, mas fazem-no de forma magoadíssima. Estamos todos a pensar no mesmo escritor. O que magoa o ateu é a incapacidade de justificar o seu ateísmo. O ateu não pode provar. O crente tem séculos e séculos de reflexão sobre Deus. O ateu está de mãos vazias. O ateu é um homem em grande rebelião consigo próprio. Há ateus dentro da comunidade de não ateus. E há crentes na comunidade dos ateus. Não se revelam para não serem criticados.

Fonte

A fonte é um lugar para onde tende a escrita e que está antes do pecado original. Teresa de Ávila já dizia que não há apetência por Deus se não houver Deus. É algo que pré-existe. Não é descoberta, é revelada. É completamente independente de nós. De repente, contactamos com ela.

Sacristia

Nos anos 70, falar de Deus era quase uma obscenidade. Hoje há uma tolerância maior. E havia uma série de escritores católicos oficiais que cheiravam a sacristia. Nas sacristias, há flores que apodrecem nos jarros, falta arejamento, há velas…

Péssima arte

Nos tempos recentes, entrou a música de péssima qualidade na Igreja Católica, que era a igreja da grande música europeia. Consequência do Vaticano II? Não sei. Dizem-me que não. Há, é certo, uma tentação do facilitismo, do feio, do grotesco. E isso é diabólico. Se é para chamar os jovens, estes jovens não prestam para nada. Foi um “aggiornamento” desastroso. Prefiro uma cerimónia sem música a ter que sofrer aquela tortura. Se eu fosse mais novo, pela música e pelos textos (a “Filocália ”- coleção ortodoxa de textos de espiritualidade), convertia-me aos ortodoxos.

Leitor da Bíblia

Sou um leitor assíduo da Bíblia, dos Salmos, do Livro de Job, o Cântico dos Cânticos, de toda a Bíblia em geral, exceto o Livro do Apocalipse – o livro preferido dos surrealistas.