Decorreu de 6 a 9 de fevereiro, na Casa Diocesana, a formação permanente dos padres da diocese de Aveiro. P.e José António Carneiro relata momentos fortes destes quatro dias de reflexão sobre a família.
A formação permanente do Clero da Diocese de Aveiro arrancou com três intervenções sobre diferentes perspetivas acerca da família. Na Casa Diocesana de Albergaria-a-Velha, 50 padres e diáconos viram e ouviram D. António Couto apresentar a visão bíblica da família e, de tarde, o P.e Francisco Martins e Juan Ambrosio, respetivamente, a visão sacramental e pastoral da realidade familiar.
O Bispo de Lamego começou a sua intervenção como uma citação de Ignacio Buttita (poeta siciliano): “Um povo torna-se pobre quando lhe roubam as canções que aprendeu dos seus pais”.
A partir de três exemplos veterotestamentários (um do Deuteronómio e dois dos Salmos), o biblista relevou o papel de transmissão e de “recitação daquilo que é precioso” e que cabe aos pais dizer aos filhos. E afirmou: “No dia em que perdermos a música e a toada familiar inscrita na Bíblia ficaremos sem sentido e à deriva”.
Para o responsável da Comissão Episcopal da Missão e Nova Evangelização, este é o grande “património espiritual da família”, pois pai e a mãe devem ter uma “música a passar aos seus filhos”. E questionou: “Num tempo em que os pais não se encontram com os seus filhos o que é que lhes podem dar a não ser uns quantos euros?”
D. António Couto destacou, depois, que na família tem de haver um “pioneiro”, um “abridor de caminhos”. Este é o papel que cabe ao que na Bíblia se designa de “feliz, de beato, de bem-aventurado”.
Antes de finalizar a sua intervenção falou ainda da “música do Dom” e da “música do Amor”. Pegando nas palavras “matrimónio e património” destacou que na origem das duas está o “munus”, o “dom”. E atirou que “quem recebe um dom deve entrar no jogo do dar”, sabendo-se que “quem não joga este jogo fica imune”.
Acerca da “música do amor” estabeleceu a diferença entre “amar” e “estar apaixonado”. Para o prelado, “estar apaixonado é um estado, amar é um acto”. Não é necessariamente certo que quem esteja apaixonado ame quem quer que seja.
E ironizou: “A Bíblia não é estúpida. A Bíblia não manda apaixonar-se, mas manda-nos amar”.
Finalizou destacando a preciosidade que toda a Bíblia coloca nas mãos e no coração, desafiando a Igreja a saber dar o seu contributo a uma sociedade cada vez mais anestesiada e mais imune à cultura do dom, do amor e da família.
Luzes e sombras
da Família
O responsável diocesano da Pastoral Familiar, por seu turno, abordou o tema “Família criada no sacramento do matrimónio”. Apoiando-se no magistério da Igreja, em especial em João Paulo II, P.e Francisco Martins procurou traçar os desafios que resultam para a Igreja no campo da sacramentalidade da família e do matrimónio.
Depois disso, Juan Ambrosio trouxe as “luzes e sombras” da questão familiar. O docente da UCP diferenciou e definiu quatro tipos de família (tradicional, bastião, companheirismo e associação) para, de seguida, elencar uma série de desafios que se levantam a partir da compreensão destes diferentes tipos de família.
Em especial, o docente chamou a atenção para a questão da família como “espaço de vida privada”, cada vez mais “centrada no indivíduo” e que vai obrigando a “sucessivas reconfigurações”. Além disso, alertou para o facto de se acentuar o número de famílias que existem sem a base do casamento, como também o contrário, e para um outro facto que faz ver a família como a soma de uns quantos projectos individuais enquanto podem coincidir em determinados aspectos e ambientes.
Igreja deve
criar plataformas
para acompanhamento
e terapia familiar
A Igreja deve pensar e apostar na criação de plataformas e centros acompanhamento e terapia familiar defendeu o P.e José Augusto Rodrigues, falando sobre “Realidades emergentes e caminhos de acompanhamento”.
O sacerdote da diocese de Leiria-Fátima defendeu que seria uma mais-valia a criação de centros de acompanhamento familiar da Igreja, que trabalhassem com “todo o rigor científico necessário”, mas que apoiasse a sua ação na “riqueza dos valores cristãos e evangélicos”.
Sustentando a sua intervenção em dados sociológicos e estatísticos relativos ao casamento e à família, afirmou que os conceitos de “matrimónio e família” são “realidades dinâmicas”, porque são influenciadas pelo tempo e pela circunstância.
Apoiando-se no pensamento do sociólogo polaco Zygmunt Bauman disse que a sociedade pós-moderna se caracteriza pela “fragilidade dos laços relacionais”, que são cada vez menos duradouros, menos sólidos e mais líquidos.
Sobre os caminhos de acompanhamento à família defendeu a terapia conjugal/familiar como “sistema aplicado à realidade familiar”, que não se trata de uma solução “nem rápida nem fácil” para os problemas que as famílias enfrentam.
Movimentos Familiares na Diocese
Um painel de testemunhos sobre diferentes movimentos de Igreja ligados à família ocupou uma tarde da formação dos padres e diáconos da Diocese de Aveiro.
Equipas de Nossa Senhora, Casais de Schoenstatt e Casais de Santa Maria estiveram presentes para apresentar a ação que desenvolvem em prol das famílias, na vivência específica de cada um dos movimentos e carismas.
O casal Duarte e Conceição Matias, representante das equipas de Nossa Senhora, sublinhou que a ideia do seu fundador (Padre Henri Caffarel) foi “elevar a beleza do sacramento do matrimónio”, visto que, até então, o matrimónio era “uma espécie de segundo estado”, direcionado para aqueles que não abraçavam a vida celibatária.
As Equipas de Nossa Senhora são um movimento de espiritualidade conjugal que pretende ajudar os casais a viver o sacramento do matrimónio e a evangelizar o seu dia-a-dia.
Os Casais de Schoenstatt, fundados pelo P.e José Kentenich, estiveram representados por Vasco e Margarida Lagarto.
O movimento é de espiritualidade mariana e destina-se a fazer dos elementos das famílias “apóstolos de Jesus Cristo”, imitando Nossa Senhora, na sua missão de dar Cristo ao Mundo. A pertença ao movimento é abrangente.
O Movimento Familiar Casais de Santa Maria, que chegou à diocese de Aveiro na década de noventa do século passado, representou-se pelo casal Carvalhais. Apresentaram, sucintamente, a história do movimento na diocese, com expressão apenas no Arciprestado de Vagos. A sua ação liga-se ao âmbito paroquial e, segundo o casal, o movimento “resulta melhor em ambientes mais rurais”, pela simplicidade própria da estrutura e do funcionamento.
