
Padre. Diretor
A Comunidade que se sente órfã – com o sentimento de que foi preterida – vive com maior ansiedade a expectativa de vislumbrar no horizonte o bordão do pastor que a aconchegue, que se perfile na sua dianteira, que mergulhe no seu seio, que tome o cuidado de a estimular a prosseguir cuidando de não deixar que se atrasem ou dispersem as ovelhas que sentem maiores dificuldades.
A Diocese de Aveiro, nestes setenta e cinco anos de restaurada, foi mimada com um escol de Bispos que a fizeram identificar-se, crescer, renovar-se. Talvez por isso a sua maior ansiedade. E, pese embora a discrição com que todas estas coisas se devem resolver, não parece que seja caminho voltarmos a uma disciplina de secretismo hermético. Pelo menos, a Comunidade que espera deveria ser ouvida de forma mais explícita, por via daqueles que carregam o ónus de dar apoio ao administrador diocesano.
Não tem sentido que corram “indicadores” fora de portas a criar uma atmosfera quase de angústia e, sobretudo, sem qualquer indicação aos interessados de “fumo branco” à vista. Nós somos adultos na fé, temos provas dadas de comunhão eclesial sem reservas, não temos hábito de contestatárias manifestações de rua. Em clima de confiança, suporte indispensável da comunhão, o diálogo límpido não é de recear.
Nós acreditamos que o Espírito prepara o caminho para a harmonia, que unge os discípulos para que sejam capazes de gestos de humildade, de fraternidade, que envia os batizados como mensageiros e testemunhas. Este Espírito é dado a toda a Igreja, em modos e responsabilidades diversas… Mas sempre em perspetiva de transparência, de complementaridade, de caminho comum. Ficamos com a sensação de que, a partir de determinada altura, se eclipsa este dom do Espírito em corredores de misterioso segredo, para desembocar numa surpresa que nos faz sentir alheios a todo o processo.
Podem dizer-nos que não somos mais que os outros. E não somos! Mas queremos ser dignos como os outros, queremos que se assuma a dignidade primordial do Batismo como sacramento fundante da Comunidade, que se estruture e organize a comunhão orgânica com os ministérios necessários, a começar pelo sacramento do ministério ordenado… Queremos que a Igreja, que as Igrejas sejam testemunho de quem vive “num só coração e numa só alma”, de quem reza e dialoga com o Espírito para que Ele diga os caminhos a seguir. E há certas formas de fazer que em nada favorecem esta genuína forma inicial do cristianismo, que o Papa Francisco nos estimula a descobrir, mas à qual continuamos a resistir.
À espera de um Bispo, uma Diocese oscila entre a esperança e a angústia, entre a exultação e o receio. Na minha pobre opinião, acho que já não haveria necessidade de que assim fosse.
