A espiritualidade de Santa Margarida Maria e os sacerdotes dehonianos

O Pe. Dehon fundou os Sacerdotes do Coração de Jesus (padres Dehonianos) “para corresponder aos apelos de Nosso Senhor em Paray-le-Monial”. Neste artigo, o P.e Fernando Mendonça, do Seminário de Esgueira do Sagrado Coração de Jesus, aborda aspectos da espiritualidade de Margarida Maria Alacoque, a propósito da visita das relíquias da santa francesa à Diocese de Aveiro (ver pág. 5 e 9).

Santa Margarida Maria Alacoque teve a importante missão de divulgar o culto ao Coração de Cristo, que, depois dela, entrou na piedade comum dos cristãos com aquela característica de oblação reparadora e de imolação até então reservada a algumas pessoas ou a grupos privilegiados. O conhecimento das suas revelações orientou a atenção dos fiéis para algumas verdades contidas na Revelação, tais como: Deus é amor; o seu amor pelos homens, sensivelmente manifestado em Cristo Jesus, não só não é correspondido, mas também é recusado pelo pecado dos homens. É, pois, necessário, em Cristo e por Cristo, expiar esse pecado e reconciliar os homens no amor com o Pai e no amor entre eles.

A espiritualidade de Santa Margarida Maria é profundamente eucarística. Jesus Cristo pediu-lhe, e pede a todos nós, por meio dela, práticas reparadoras, tais como a celebração e participação na Eucaristia, a Comunhão eucarística, a Adoração eucarística, a Hora santa, para suscitar em muitas almas e durante muitos anos uma rica corrente de oblação reparadora. Estas práticas foram assumi-das e recomendadas também pelo P. Dehon. O Fundador dos Sacerdotes do Coração de Jesus – Dehonianos – escreveu no seu Diário: “Nascemos do espírito de Santa Margarida Maria”. E, no Directório Espiritual para a Congregação, afirma: «A vida de amor e imolação, em união ao Coração de Jesus, é a graça do tempo presente. Nosso Senhor, após as revelações de Paray-le-Monial, conduz pouco a pouco as almas neste sentido… Quando esta graça estiver suficientemente difundida, então há-de realizar-se o reino do Coração de Jesus nas almas. A profissão de amor e de imolação, que confere à nossa Congregação o seu carácter específico, deve ser-nos muito querida. Dá resposta ao duplo pedido de Nosso Senhor a Santa Margarida Maria: «Dá-Me todas as tuas acções e os teus méritos, para que Eu disponha deles segundo o agrado do meu Sagrado Coração; sê uma vítima que se sacrifica ao meu Coração para a realização dos meus desígnios. Esta profissão faz-nos reviver a característica dominante da vida de Jesus: a oblação de amor». «Todo o ensinamento de Jesus, ao revelar a S. Margarida Maria o seu Coração ferido e coroado de espinhos, se resume no espírito de imolação por amor».

Na linha deste e de outros ensinamentos do Pe. Dehon, inspirados pela mensagem de Paray-le-Monial, as Constituições da Congregação afirmam: «Ao fundar a Congregação dos Oblatos, Sacerdotes do Coração de Jesus, o Padre Dehon quis que os seus membros unissem, de forma explícita, a sua vida religiosa e apostólica à oblação reparadora de Cristo ao Pai pelos homens. Esta foi a sua intenção específica e originária e a índole própria do Instituto (cf. LG e PC), o serviço que é chamado a prestar à Igreja. Conforme dizia o próprio Padre Dehon: “Nestas palavras: Eis-me aqui… Eis a serva…, encerram-se toda a nossa vocação, a nossa finalidade, o nosso dever, as nossas promessas”».

A oblação de amor, até à imolação, alma do carisma dehoniano, tem como objectivo a Reparação, cujo “centro” é o Calvário e, mais especificamente, o mistério do Lado trespassado do Senhor. A Reparação é obra de Deus, em Jesus Cristo morto e ressuscitado. “Reparar”, para os Dehonianos, é “conversão” a esse mistério, é o olhar de fé e de dor sobre o Trespassado: «Hão-de olhar para aquele que trespassaram» (Jo 19, 37), para acolher o Espírito que brota do Lado trespassado (cf. Jo 19, 34), para corresponder ao amor de Cristo (cf. Jo 15, 9), para viver em comunhão no seu amor pelo Pai (cf. Gl 4, 6), para cooperar na obra da redenção de Cristo no coração do mundo, por meio do Espírito, de Quem somos “ministros” (2 Cor 3, 6). Passa-se de uma perspectiva, pelo menos aparentemente, devocional e cultual (exercícios de piedade: missa e comunhão reparadora, primeiras sextas-feiras do mês, hora santa, adoração eucarística, mês de Junho, festa do Coração de Jesus, etc.) para uma perspectiva mais global: união da nossa vida à «oblação reparadora de Cristo», para fazer de toda a nossa existência “uma missa permanente” (Constituição 5 e 6). As práticas de piedade, recomendadas por Santa Margarida Maria são integradas e aprofundadas numa perspectiva mais global. Mas não podem ser desprezadas, porque, se tal acontecer, acaba-se por esquecer a Reparação.

O Pe. Dehon fundou a sua Congregação «para corresponder aos apelos de Nosso Senhor em Paray-le-Monial». Mas, guiado pela própria Santa Margarida Maria, chegou ao Novo Testamento, particularmente a S. João evangelista, que foi o seu verdadeiro iniciador e educador na atenção ao Coração de Jesus. Impulsionado pelos ensinamentos do Papa Leão XIII, deu à devoção tradicional ao Coração de Jesus uma dimensão social importante: «Possuído pelo amor de Cristo, que não é acolhido», quis corresponde-lhe «com uma união íntima ao seu Coração e com a instauração do seu Reino nas almas e nas sociedades» (Constituição 4).

Apostolado Social

No seu Diário, o Fundador evoca algumas obras de apostolado social. Em S. Quintino: o Patronato de S. José, o Colégio de S. João, a assistência religiosa aos operários das fábricas de Leão Harmel, em Val-des-Bois. Na diocese de Soissons: o apostolado social e a pregação de missões populares. Recorda especialmente duas obras de apostolado geral que devem ser continuadas pelos seus religiosos: «a primeira: conduzir os sacerdotes e os fiéis ao Coração de Jesus, para Lhe oferecer um tributo quotidiano de adoração e de amor»; a segunda: o compromisso de elevar as condições de vida das massas populares, «com o advento da justiça e da caridade». O zelo do Pe. Dehon pelo apostolado social, inspirado pela contemplação do Lado aberto e do Coração de Cristo, levou-o também a fundar uma revista e a escrever numerosos livros para a divulgação da doutrina social da Igreja, a organizar congressos para a formação dos seminaristas, dos padres, dos empresários e dos próprios trabalhadores nessa doutrina. As actuais Constituições do Instituto concluem: a Congregação «é chamada a fazer frutificar esse carisma, segundo as exigências da Igreja e do mundo».

P.e Fernando Fonseca, S.C.J.