António Bagão Félix, professor universitário de Economia e antigo ministro, esteve no Centro Universitário Fé e Cultura, na noite de 9 de Junho, a convite do Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro (ISCRA), para falar da relação ética / economia. O encontro foi moderado por Joaquim Marques, presidente do Conselho Administrativo do ISCRA. Aqui fica o resumo possível de uma noite de afirmações sérias e profundas e de vez em quando pontuadas por notas de humor. J.P.F.
Indissociáveis
“Ética e economia” é um oxímoro, como “silêncio ensurdecedor” ou “contentamento descontente” (Camões)? Se há uma coisa, não há outra? Não. E, como afirma Drucker, a ética da economia não é diferente de qualquer outra, na família, na escola, na política, no desporto.
Ser pessoa
Somos seres biológicos, somos cidadãos e somos pessoas. A ética reside na primazia de sermos pessoas, seres relacionais em que se coloca a questão dos valores.
Ética e lei
Há uma grande confusão no mundo de hoje, a de que cumprir as regras da lei é ser eticamente irrepreensível. Isso é condição necessária, mas não suficiente. Ficar apenas por aí é o que está na base da actual crise económica. A ética proíbe a deslealdade, a mentira, o ódio, a ganância. Mas isto não é proibido pela lei. Posso ser um cumpridor completo da lei e ser um safado.
Bem e mal confusos
Há uma dificuldade maior em distinguir o bem do mal. Há uma erosão de fronteiras. Na sociedade, esta distinção é como a pedra-pomes: muitos buracos, mas pouco peso. Deixamos de ter valores para ter opiniões, como se as opiniões fossem valores.
Casar ética e economia
A ética é absolutamente essencial para a sustentação da economia. Adam Smith (1723-1790) tornou a economia numa ciência mais econométrica do que humana. Com a crise actual, volta-se a casar a ética e a economia, porque houve formas capciosas de cumprir a lei por parte de pessoas habilidosas, gananciosas, com falta de escrúpulos que causaram a crise.
O todo e a parte
A ética tem a ver com o todo, como na história da visita de S. Luís (Luís IX de França) à catedral de Chartres em construção. O rei vai perguntando aos operários o que estão a fazer e todas as respostas são parciais. No final, pergunta a um velho que está a varrer umas aparas e este responde-lhe: “Estou a construir uma catedral”. O mais humilde tinha a noção do todo. Hoje, vive-se em retalhos, cacifos. Coisificam-se e espartilham-se as pessoas.
Como amolecer a ética…
A linguagem do politicamente correcto é uma forma de relativismo para amolecer as questões éticas. Os exemplos abundam: “interrupção voluntária da gravidez” [em vez de aborto], “morte clinicamente assistida” [em vez de eutanásia], “reestruturações” [em vez de despedimentos], “ficar retido” [em vez de chumbar], ou até “recursos humanos” [em vez de pessoal].
…e diluir os valores
A ética opõe-se à lógica da contabilização. Os valores não se podem quantificar. Não há uma medida de quantidade para a ética. Dizer que uma pessoa é “pouco honesta” ou “muito honesta” é uma forma de dissolver os valores. O “muito” e o “pouco” estão a mais. Ou é ou não é honesta. Mais uma vez, a linguagem para diluir os valores: inverdade em vez de mentira; imparidade em vez de desvio, fraude; sinergia em vez de conflito de interesses; mal menor e flexibilidade em vez de desonestidade.
Endividamento no momento
Na crise actual, sobressaem dois factores. Primeiro, a embriaguez do endividamento de pessoas, empresas e estados, ao mesmo tempo que se desconsidera a poupança, que é factor de solidariedade intergeracional. O endividamento é geracional ao contrário, o que faz lembrar a anedota: “Qual é a diferença entre Natal e Orçamento do Estado? No Natal, os filhos pedem e os pais pagam. No Orçamento do Estado, os pais pedem e os filhos têm de pagar”. Por outro lado, há uma primazia completa do curto prazo. Vivemos a era do “Homem do Instante”. Hoje fala-se, amanhã esquece-se. O esquecimento faz parte do défice ético.
Falta de exemplos
Nas sociedades actuais há um défice de exemplaridade. Antes da iconografia do sucesso devia estar a da exemplaridade. Santidade, segundo os católicos. A exemplaridade entra-nos pela negativa, pelo sucesso dos vícios. A noção de autoridade é fundamental. Quem vai à frente deve dar o exemplo. Os vícios são contagiosos. As virtudes são contagiantes. Como dizia Séneca, longo e penoso é o caminho através das normas, curto e eficaz através do exemplo.
O que nos faz pessoa não é o Bilhete de Identidade. É precisamente o que não cabe no B.I., os valores e a sabedoria, que é um compósito de saberes.
Ser e parecer na política
Os políticos não são melhores nem piores do que o resto da sociedade. São é permanentemente escrutinados. O grande valor da política deve ser a verdade. A fantasia, a ilusão, a quimera, o ziguezague, tudo isto é o grande estigma ético. Em política, diz-se que “o que parece é”. A ética diz o contrário: não é preciso parecer, é preciso ser.
Teste às atitudes
Teste da ética. [Professor universitário, Bagão Félix revelou um teste que costuma dar aos alunos para avaliar se uma decisão é ética.] Depois da decisão… 1. Espelho. Posso ver-me ao espelho sem me envergonhar? 2. Sono. Posso dormir descansado? 3. Família. Sinto-me bem a contar-lhe? 4. Dignidade. É uma decisão que dignifica os intervenientes? 5. Equidade. Os direitos ficam acautelados? 6. Proveito pessoal honesto? 7. A justiça procedimental está assegurada? 8. Há coerência de valores? 9. A regra de ouro (não faças aos outros o que não queres que te façam a ti) é observada? 10. Primeira página. Sentir-me-ia confortável se a minha decisão abrisse o noticiário?
Outros comentários
IMPOSTOS RETROACTIVOS. O Estado vai cometer uma ilegalidade? É o que acontece ao afirmar a retroactividade dos impostos. É uma violação grave que destrói a confiança entre governantes e governados. É gravíssimo.
RECOLHA DE IMPOSTOS. Dizia Colbert que é como depenar um ganso tirando o máximo de penas com a menor dor possível.
ECONOMISTAS. Segundo um humorista francês, os economistas são como os cirurgiões que martirizam o vivo e operam o morto.
SAD. A ética das sociedades anónimas desportivas deve ser a das “take holders” (“partes interessadas”). Devia haver discrição, prudência e serenidade, como noutras empresas. Mas não é o que acontece. Por outro lado, se os jogadores têm ordenados altos, é preciso notar que os adeptos do futebol é que os pagam.
A EMPRESA. Segundo Peter Drucker, a empresa é como uma orquestra: pouca hierarquia, todos tocam a mesma partitura e todos são importantes.
AVÓS. Não sabemos aproveitar o melhor de cada geração. Há um eclipse dos avós. Os velhos são úteis enquanto trabalham. Ser velho é ter todas as respostas mas já ninguém fazer as perguntas. Deixou de haver ventilação vertical nas sociedades. Não se aproveita a ancianidade.
CASAMENTO HOMOSSEXUAL. O Presidente da República actuou de maneira redutora. Afirmou valores, numa ética de convicção, mas por causa de aspectos conjunturais assinou a lei – ética das circunstâncias. Não compreendo a decisão. Por redução ao absurdo, as pessoas que se casarem por esta lei devem agradecer à crise.
