Chorei sobre o “apartheid”

Colaboração Já lá vão uns pares de anos. Andei por esse maravilhoso país, África do Sul, que tanto pão deu e ainda dá aos nossos valentes emigrantes, mas que também dá mil e um amargos de boca…

E, agora, passados tempos, recordo um episódio que retrata bem o que foi aquele paradisíaco país, onde o ouro abunda e o Cabo das Tormentas não se mistura com o da Boa Esperança.

Contemos, então, o episódio, no decorrer da festa maior do desporto rei – o Mundial 2010. Na ânsia de ir mais longe nos trabalhos para que especificamente fora incumbido pelos meus jornais, galgava mares, pulava montanhas, porventura, nunca antes trepadas, escaladas. Fazia-me ao largo com riscos sem fronteiras. Saía das paredes do hotel, entrava noite dentro pelas ruas das urbes. Era assim. Foi assim.

Uma dessas aventuras ocorreu numa praça de Joanesburgo. A dada altura perdi-me. Perdi o norte da minha dormida. Telemóveis ainda não havia e outras comunicações não tinha. Que fazer? Descortinei alguém, no meio de uma turba multa, que me pareceu gente de bem. No meu débil inglês, pedi-lhe que me dissesse onde era um tal hotel. Ele, ainda muito jovem, respondeu-me em escorreito português, dá-me um grande abraço e leva-me ao meu dormitório. Que emoções me vieram à mente, destes portugueses espalhados pelos cinco cantos do mundo.

Tive outras recordações, noutras paragens, como os casos dos “bidonsvilles”, nos arredores de Paris, nas favelas do Brasil, na Venezuela. Em todos, porém, pulula a aventura dos heróis portugueses.

Mas voltemos a Joanesburgo, em tempos de novas odisseias, que os nossos emigrantes, os nossos portugueses estão a saborear, descendo ou subindo aos estádios de multidões de portugueses, agora, infelizmente, com riscos, mas eles não se cansam de clamar bem alto: “Portugal”, “Portugal”, sabendo, embora, os perigos que correm. Que o digam os nossos jornalistas que ali estão destacados.

Mas demos mais um passo e recordemos outra aventura. Ousei penetrar na região do “apartheid”, mas tive de ficar a vê-lo ao longe. O condutor do carro de aluguer disse-me categoricamente que lá não me levava. “Quer lá ficar morto e eu?” Parei, contemplei e, sem vergonha, chorei. Ali trabalhadores das minas de ouro tiravam fortuna. Mas nessas preciosidades, nesses manás não podiam tocar. Queimavam-lhe as mãos!

Para terminar, é bom evocar e prestar vassalagem a essa figura impar, a esse santo da Liberdade e dos Direitos Humanos que se chama Nelson Mandela, o homem da queda do “apartheid”.

Daniel Rodrigues