A Família tem de estar no centro das preocupações políticas

Integrado nas comemorações do 16º aniversário do ISCRA (Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro) decorreu, no passado dia 24, um jantar cultural.

Neste evento, que contou com a presença do D. António Marcelino, foi proferida uma conferência subordinada ao tema “Família e políticas públicas”, da responsabilidade de João Paulo Barbosa de Melo.

Economista de formação, o conferencista começou por traçar as características fundamentais da família de hoje, com realce para a constatação de ser a primeira vez na história que se conjuga crescimento económico com diminuição da natalidade. Não esquecendo as bolsas de pobreza ainda existentes, há um dado inquestionável que é o facto das famílias, em Portugal, em média, viverem numa situação económica melhor que as gerações anteriores, disse Barbosa de Melo. Em relação ao divórcio, registou-se uma duplicação (de 10000 para 20000) nos últimos dez anos em Portugal, sendo menos provável, cerca de três vezes menos, nos casamentos religiosos, e mais frequente nos casais com apenas um filho (diminuindo progressivamente com o número de filhos).

“Ainda que a família seja uma instituição envolta na esfera do privado, ela é de utilidade pública, pelo que tem que estar no centro das preocupações políticas.” Foi reforçada a ideia de que a neutralidade do Estado em relação às políticas de família é uma utopia, uma vez que ter políticas é ter opções. Veja-se, como exemplo, o caso do IVA. Ao serem taxados uns produtos a 5%, outros a 12% e outros agora a 21%, estão a ser tomadas decisões com base em critérios de valor. O princípio da discriminação existe. Este princípio é ainda mais visível na pe-nalização fiscal das famílias institucionais. Como exemplo, foi citada a pensão de alimentos que pode ser deduzida por cada filho numa situação de divórcio e que pode exceder os oito mil euros por ano e por filho. Os contribuintes casados não o poderão fazer. Verifica-se ainda que o sistema fiscal português não incentiva a natalidade, apesar desta ser de 1.4 no nosso país (uma das mais baixas da Europa). É maior o benefício fiscal que podemos obter por adquirir um painel solar, que pelo nascimento de um filho. O que deve, então, fazer o Estado? Ele pode não discriminar negativamente ninguém; mas pode discriminar positivamente alguém, disse o economista.

As políticas de família estão ainda muito vinculadas a um dado da demografia – a explosão demográfica –, que já não corresponde à realidade. Foram apresentados números relativamente aos diferentes continentes e a Portugal. É um dado adquirido que a população mundial irá ainda registar um pequeno aumento até 2050, mas depois sofrerá um decréscimo acentuado. Em relação a Portugal, verifica-se um envelhecimento da população desde há 30 anos, o que constitui um grave problema económico, que traz consigo consequências, como o aumento da idade da reforma.

A conferência terminou com a ideia de que é necessária uma perspectiva positiva de família e de promoção desta como sendo um valor fundamental para a sociedade. É vital introduzir na nossa forma de pensar e comunicar a positividade em relação ao projecto de família. Para isso, é importante dar teste-munho. Compete à família não descurar os seus deveres de cidadania, nomeadamente os da educação dos filhos, assumindo critérios e educando para a participação. Se é verdade que a sociedade em que vivemos está mais consciente dos direitos humanos, também é verdade que está mais triste, mais violenta, mais hedonista, sem tempo para reflectir, para dialogar… Concluiu-se, pois, que é missão da família dar testemunho de felicidade e contagiar pela positiva esta mesma sociedade.

Cristina Ribau