A favor da inovação efectiva

1. Muito se fala de inovação, hoje em dia. Até se considera novidade falar de inovação, esquecendo que ela tem sido uma constante na história da teoria económica.

A inovação é com certeza um bem, desde que não colida com a dignidade humana e com outros valores fundamentais. Mas deixa de ser tão positiva, quando se reduz a um conceito ou a uma ilusão e se transforma numa simples moda. Claro que o discurso promotor da inovação suscita sempre alguma inovação efectiva, em maior ou menor grau. Mas, quando não se rodeia de cautelas suficientes, corre o risco de desfasamento da realidade.

2. O discurso actual sobre a inovação, articulada com o Plano Tecnológico, já contém várias marcas de irrealismo ou de menosprezo da realidade. Segundo algumas dessas marcas: a inovação parte da investigação (universitária) para a acção, nomeadamente para as empresas; situa-se mais no ensino superior do que nos outros; também se situa mais na grande empresa do que na pequena; além disso, é mais típica do trabalho considerado “intelectual” do que do chamado “manual”…

Este discurso preconceituoso ignora que existe inovação em grande número de empresas: inovação nos seus produtos, nos processos de produção, na organização, no relacionamento com fornecedores e com clientes… Mal vai a política de inovação, se menosprezar esta prática de base; com tal menosprezo, nega um potencial forte e faz recear que menospreze a própria realidade.

Em relação ao sistema educativo, seria bom que o discurso da inovação tivesse em conta que o ensino básico e o secundário são um apelo permanente à inovação, na procura do saber pelos alunos e na adaptação das metodologias educativas. Convém recordar que foi difundido, há muito, que a aprendizagem é, em si mesma, um processo de investigação “sui generis”.

Em suma: há que promover a inovação, com certeza, desde que ela seja efectiva: isto é, desde que seja real e produza efeitos. Ou, por outra, desde que a respectiva política respeite, estimule e apoie a inovação que existe em todo o tecido económico e social. E desde que a inovação e investigação consideradas superiores ou mais científicas correspondam às necessidades desse mesmo tecido e saibam propagar-se nele.