Lado B – Agora, vem o futuro: desejo desejado

Que eu possa, ao longo deste novo ano, ler toda a Bíblia, sem parar. Leitura de leitor, para além do exegeta, aquém do crente. Olhos para ler a obra toda. Que eu possa fazer menos, para fazer melhor e mais. Abolir a desorganização, reduzir a improvisação, combater a negligência. Que eu possa insistir no trabalho meditado. Sem meditação, não há símbolos que façam pensar. O Espírito alimenta-se de símbolos, de preferência bíblicos.

Que neste novo ano, eu possa acreditar na espiritualidade do corpo. Procure confessar-me ao menos 3 vezes ao longo do ano. Claro que são válidas e lícitas as Celebrações Penitenciais Comunitárias; comecei o ano a participar, pela primeira vez na qualidade de fiel usuário, no meio do povo, fazendo fila. Que eu esteja, também, sempre disponível para poder confessar bem os crentes e os descrentes. “Não há crer sem querer, nem querer sem crer” (click, Vasco Pinto Magalhães).

Que em todas as celebrações deste novo ano, eu possa transcender-me; falar directamente ao coração sem retórica, inflamado no carisma. Que eu saiba calar-me; não sou um papagaio de Deus. Que eu dê a comunhão, olhando apenas olhos nos olhos. Que eu dê o abraço da paz, sabendo que os corpos têm uma história, que não pode ser negada, mas integrada. Que, na pastoral, a educação ecológica seja real. Vou estudar, divulgar e viver mais a “Carta da Terra” (2000).

Que, neste novo ano, eu possa em todas as discordâncias, revelar minha ignorância, dizendo “não sei” e “não compreendi”. Que seja mais humilde, mas verdadeiro; para longe a escravidão da emoção. Que não fuja do conflito, refugiado numa cordialidade insípida. Mesmo no xadrez, não gosto de fazer “o sacrifício do bispo”, devo evitar as conclusões involuntárias.

Que, ao longo deste novo ano, eu aumente a curiosidade dos desencantados. Que eu aprenda a ser profeta. Que eu cultive a fé como instinto da alma (se for o contrário, que eu peça ajuda). Que possa alimentar as pessoas de símbolos e sonhos e não de receitas e preços. Que eu seja inteligente sem ser asfixiante, mais culto, menos erudito. Que eu possa estar sempre presente em todas as situações de fronteira, ou na maioria prioritária delas. Que eu viva com o Evangelho no coração e o CIC (Codex Iuris Canonici) atrás da orelha.

Finalmente, neste novo ano, que eu consiga jogar uma partida de futebol de 15 em 15 dias (ao menos uma vez por mês!). Que eu faça uma pós-graduação na arte de conversar. Veja cada vez menos televisão (é difícil, mas não impossível), durma mais se for o caso (é fácil, mas nem sempre possível). Mas, se for mesmo possível, deitar às 21h00 e levantar às 5h30, para jogar futebol, meditar, ouvir os pássaros que fazem seu ninho no meu quarto, ler ou escrever, tanto me faz, mas fará muito bem. Neste ano novo, vou reinventar-me, serei mais teórico, mais existencial e mais pastoral. Tríade profana e sagrada. Espero, de desejo desejado, que os meus círculos viciosos se possam transfigurar (e não cada vez mais desfigurar), em círculos virtuosos.