A Festa (1)

Notas Litúrgicas Durante o passado ano pastoral, andámos a reflectir sobre a celebração e vivência do Domingo cristão, procurando descobrir os seus valores. O Domingo é o dia de festa fundamental da vida cristã e do cristão. Iremos este ano aprofundar alguns aspectos da festa, para que revalorizemos este fenómeno humano, social e religioso tão importante na nossa vida. Numa época em que a tensão da vida e diversos tipos de puritanismo pareciam ter sufocado a capacidade festiva do homem, sobretudo do homem ocidental, está-se a viver uma redescoberta do gratuito e do celebrativo. A festa recupera a popularidade tanto a nível religioso como cívico. Pastoralmente, junto com a ênfase posta, sobretudo no compromisso e na opção libertadora, assim como na evangelização e construção das comunidades cristãs, tem aparecido com novo vigor o aspecto festivo do povo cristão.

1. A festa humana

É difícil definir o que é a festa. Contudo, podem-se assinalar algumas das suas características mais universais, que representam também a chave dinâmica da festa cristã.

A) Antes de mais, a festa tem algo de ruptura com a vida quotidiana: é algo que resulta não habitual, extraordinário. Popularmente, «festa» quer significar um «dia não laboral»: aquele espaço de tempo em que se rompe a monotonia da vida diária e o ritmo opressivo do trabalho normal, dando lugar à distensão, ao descanso, à serenidade, à falta de obrigatoriedade. A festa faz um parêntesis na tensão diária, redimindo, de algum modo, o desgaste da vida e dando a esta um sentido libertador.

B) A festa comporta um ar de gratuidade e de alegria. A gratuidade é a atitude vital oposta ao utilitarismo pragmático que costuma ser a tónica da actividade humana. É a capacidade de contemplação admirativa, de saber «perder o tempo», aceitando a vida como dom e graça, num clima de estética e jogo. Jogo no sentido não tanto fisiológico, mas naquele sentido que já Huizinga (Homo ludens) analisava, como atitude cultural e humana que abarca todas as actividades pessoais e sociais. A alegria é conatural à festa, com as suas mil manifestações de vestes, comida e bebida, canto, dança e até de um certo despiste, abundância e excesso, acentuando precisamente a descontinuidade com a vida ordinária. Será um voltar consciente à felicidade original, paradisíaca, ou melhor, uma opção de projectar-se para a felicidade futura, utópica, em contraste com as mil preocupações da nossa história, em geral, demasiado solene e séria? Em todo o caso, a festa pode entender-se na dinâmica de tensão entre o método racional e ordenado como chave da vida (Apolo) e a vitalidade, a liberdade e o jogo (Dionísio). Pena é que, às vezes, a própria festa caia também na espiral consumista, entendendo-a como mera válvula de escape para poder, a seguir, gastar mais.

C) Toda a festa supõe a presença da comunidade, ou seja, uma dimensão social de reunião e encontro entre os membros de um grupo, seja este familiar, social, desportivo ou religioso. A amizade, a alegria partilhada e celebrada e a comunitariedade dão à festa um evidente ar de comunhão social que rompe barreiras entre o rico e o pobre, entre o patrão e o empregado. Além disso, a festa contribui continuamente para uma regeneração da própria identidade do grupo à volta dos acontecimentos que se celebram: a festa reaviva a consciência de pertença ao grupo, que se reconhece a si mesmo como tal comunidade, fundada em valores que a constituiram originalmente.

SDPL