A festa (4)

Notas Litúrgicas C) Ecclesia ludens

Por isso, não pode ser estranho que a Igreja esteja a amadurecer na sua espiritualidade para uma chave mais positiva, mais em consonância com os valores da vida e do Reino, como sacramento vivente do amor de Deus, como pregadora convencida da boa notícia, superando os esquemas que a poderiam fechar numa imagem de superorganização, supermoralismo ou de superascética puritana. Ela é uma comunidade cristã que diz «sim» ao bom e ao belo, que se abre ao mundo (Gaudium et spes, do vaticano II), que conjuga a missão construtora e profética com a primazia da graça, da esperança e da alegria ( cf. a Gaudete in Domino, de Paulo VI). A Igreja tem que saber fazer festa, ser uma verdadeira Ecclesia ludens. A queixa do salmo («como fazer festa em terra estrangeira?») deve resolvê-la com uma visão optimista e pascal, apesar da dor e da fadiga da história. Os símbolos sacramentais que Cristo lhe confiou – sinais comunicativos dos melhores valores transcendentes do Reino – não podem ser mais festivos: o banho na água, a unção com o «óleo da alegria», o pão e o vinho da comida fraterna… E, como chave central de toda a espiritualidade, o amor. Ou seja, o «sim» a tudo o que é bom. E como disse S. João Crisóstomo, ubi caritas gaudet, ibi est festivitas: onde há amor gozoso, aí se celebra a festa.

Também à Igreja lhe foi confiada uma missão difícil, messiânica, que sempre lhe foi levando a cruz. Mas, como Cristo, deve cumprir esta tarefa de luta e libertação num clima positivo e de afirmação: num clima de festa.

E) A herança do Antigo Testamento

Na abundante herança que a comunidade cristã recebeu do povo judeu está também uma espiritualidade positiva, capaz de entoar a Deus uma oração admirativa e de bênção, apesar de estar no meio de uma história realmente atormentada. E, dentro desta espiritualidade, a capacidade de festa. Muitas das festas cristãs derivam directamente das do AT, sobretudo, a Páscoa e o Pentecostes. Outras tiveram a sua raiz num contexto mais pagão e cósmico, como a do Natal.

O povo judeu é um dos que souberam incorporar melhor a dinâmica festiva na sua cultura e religião, como elemento essencial da sua vida e da sua compreensão da história. A festa da Páscoa, que mergulha as suas orígens no ritmo mais primitivo dos nómadas e povos agrícolas (as primícias dos rebanhos ou dos campos, na Primavera), coloriu-se profundamente como memorial da grande libertação do Egipto, o êxodo. A festa do Pentecostes, também radicalmente ligada à colheita de Verão, celebrou-se depois também como recordação da primeira Aliança no monte Sinai. O cósmico e o salvífico, harmonicamente conjugados num conceito de festa tipicamente judaica, que a seguir passou à nova primavera, a Ressurreição do Senhor, e Pentecostes, como a irrupção do Espírito sobre a nova Igreja.

Também o sábado judaico, admirável conjugação da festa cósmico-humana e do memorial semanal da Aliança, legou ao domingo cristão, apesar da sua inegável originalidade, algumas das suas características mais valiosas. O NT não rompe com os esquemas pedagógicos da festa judaica, mas infunde-lhes conteúdos novos e um estilo característicos, centrados em Jesus Cristo.

SDPL