Teresa Borges formou-se em Direito na Universidade de Coimbra e exerce advocacia em Aveiro. Tem dois filhos, de 11 e 16 anos, e é divorciada. Foi catequista na paróquia da Glória e na Vera Cruz, em anos diferentes, e integrou a equipa diocesana de preparação remota para o Matrimónio. Colabora no Instituto Superior de Ciências Religiosas (ISCRA), na área da Doutrina Social da Igreja.
“A sociedade e a forma como a família se vê forçada a organizar-se para sobreviver potenciam ruturas e conduzem normalmente a um caminho sem retorno, que termina em separação”, afirma Teresa Borges, reconhecendo que se cuida pouco do relacionamento entre pessoas.
Correio do Vouga – Recolheu dados sobre os divórcios e recasamentos. Quais os números que lhe chamaram mais a atenção?
Teresa Borges – Sim, recolhemos. Baseámo-nos nos dados do INE relativos ao período dos últimos 17 anos (entre 1995 e 2011), o que nos permitiu conhecer a evolução do número total de casamentos, do número de casamentos católicos e civis, o número de recasados e o número de divorciados (nestes últimos apenas até 2010). Houve resultados que corresponderam às nossas expectativas, outros já não.
Concretizando, em 1995 a maioria dos casamentos era católico, enquanto em 2011 a maioria dos casamentos foi civil, não porque estes últimos tenham aumentado significativamente mas apenas porque o número de casamentos católicos diminuiu drasticamente. Isto pode explicar-se parcialmente pelo facto de ter aumentado o número de divórcios, levando a que os segundos casamentos sejam obrigatória e exclusivamente civis. Mas outra surpresa foi o facto de que o número destes segundos casamentos não ter crescido duma forma mais visível, nunca se afastando do valor de dez mil por ano. Aqui pode acontecer que as pessoas, em vez de recasarem passem a viver em união de facto, especialmente nos centros urbanos. Encontramos poucos dados fidedignos sobre as uniões de facto.
Ficámos especialmente surpreendidos ao constatar que ao longo destes 16 anos, o número de divórcios, tomando em consideração o tipo de casamento realizado, civil ou católico, se manteve constante, o que mostra que independentemente do tipo de casamento celebrado a percentagem do número de divórcios correspondentes não difere entre si.
Numa análise mais sociológica, remetendo também para a sua experiência de advogada, quais as principais causa dos divórcios de casais católicos?
As principais causas são comuns a todos os casais, sejam católicos ou não. As dificuldades financeiras são desde há largos anos uma das causas imediatas e recorrentes para a rutura entre o casal, no entanto, na minha opinião, não são nem a única nem a principal causa de divórcio. A sociedade em que hoje vivemos e a forma como a família se vê forçada a organizar-se para “sobreviver” potenciam ruturas e conduzem normalmente a um caminho sem retorno, que inevitavelmente termina em separação. As queixas que habitualmente nos chegam têm a ver com a falta de preparação das pessoas para se relacionarem umas com as outras e para gerirem os conflitos inerentes.
O divórcio aparece como uma saída fácil para as complicações?
A falta de espírito de sacrifício, a tendência para seguir o caminho mais fácil e o egoísmo têm como consequência natural e expectável que em situação de conflito dentro de um casal, o caminho a seguir seja o do divórcio. Por outro lado, havemos de perceber que a tendência para casar mais tarde, “quando as condições o permitem”, gera normalmente uma ideia de independência entre os membros do casal, que deixam de partilhar a vida, para passar a partilhar espaços, coisas e dívidas. A ausência de projetos de vida a nível individual é também outra causa que merece ser analisada, pois que impede a construção de um projeto comum, que permita manter unidas duas pessoas. A ideia de que a união faz a força tem-se dissipado, num mundo em que “vale tudo” e em que o “eu” supera o “nós”. O individualismo crescente é comum a todos, católicos ou não, e deve constituir um desafio para mudarmos a formação das pessoas. Investimos na educação, apenas para fornecer conhecimento e conceder graus académicos, quando deveríamos pensar em formar, antes do mais, pessoas. Este é para mim, enquanto católica e profissional, o cerne da questão.
O seu compromisso apostólico é conhecido na comunidade cristã, tal como a sua condição de divorciada. Sente-se abandonada pela Igreja?
Não, não posso afirmar que me sinto ou alguma vez senti abandonada pela Igreja. Sinto alguma tristeza por perceber que na maior parte das vezes, são tratadas de forma igual, ou semelhante, situações, na sua origem bem diferentes. Penso que a Igreja acolhe, na maior parte dos casos, e tenta ser mãe, mas considero que há ainda um longo caminho a percorrer, e que nomeadamente a aceitação de um segundo casamento, em algumas situações deveria poder ser admitida. Claro que a tristeza que sinto não me faz questionar a minha fé, ou sequer me afastou/afasta da Igreja. Tornou apenas mais evidente que existem questões pertinentes a debater e a alterar, resultantes da constatação que hoje a Igreja tem de fazer de que o ideal que proclama, nem sempre tem correspondência na realidade dos nossos dias.
