A Igreja quer oferecer um caminho espiritual aos recasados

Antigo ministro do Ambiente, professor e diretor do Departamento de Ambiente e Ordenamento e primeiro responsável do IDAD (Instituto do Ambiente e Desenvolvimento), Carlos Borrego, casado, pai de uma filha, integrou a equipa que esteve na origem do Centro Universitário Fé e Cultura e foi até há pouco presidente da Comissão Diocesana Justiça e Paz.

“Que estes homens e estas mulheres saibam que a Igreja os ama, não está longe deles e sofre pela sua situação”, diz Carlos Borrego, citando o Papa João Paulo II. O professor universitário considera que os casais católicos têm a tarefa ímpar de acolher os casais em segunda união.

Correio do Vouga – Os católicos recasados sentem-se ou estão mesmo abandonados pela Igreja?

Carlos Borrego – Existem casais que se sentem menos comprometidos com a Igreja devido à sua situação de recasados, de facto. No entanto, a Igreja não quer discriminar e punir os casais em segunda união, mas quer oferecer-lhes um caminho espiritual e pastoral adaptado à sua situação. Este caminho espiritual e pastoral foi apontado claramente pela Exortação Apostólica “A Família Cristã”, que João Paulo II nos deu na sequência do Sínodo dos Bispos sobre a família (1980). É uma orientação pastoral muito rica de frutos espirituais de vida cristã, mesmo que a situação permanente de segunda união seja uma situação “irregular”.

Há uma omissão da Igreja nesta questão pastoral?

Não há uma omissão da Igreja, como já referi. Cada casal é um único casal diante de Deus, do Deus que “só Ele conhece o que há no interior do homem” (João Paulo II, Homilia de 22/10/1978). Cada casal, diante de Deus, deve ser a sua própria realidade, essa que só Ele conhece.

Mas é preciso fazer com que esses casais sejam acolhidos nas paróquias e dioceses. E neste campo há um caminho importante a percorrer, pelos leigos enquanto membros da Igreja e pelas estruturas paroquiais e diocesanas, porventura com uma pastoral específica para casais em segunda união.

Em que consiste esse “caminho importante a percorrer?”

A Exortação Apostólica “Sacramento na Caridade” (2007) de Bento XVI reafirma o convite a cultivar, quanto possível, “um estilo cristão de vida, através da participação da Santa Missa, ainda que sem receber a comunhão, da escuta da Palavra de Deus, da adoração eucarística, da oração, da cooperação na vida comunitária, do diálogo franco com um sacerdote ou mestre de vida espiritual, da dedicação ao serviço da caridade, das obras de penitência, do empenho na educação dos filhos”.

Para que todos consigamos encontrar um caminho comum e necessários que os católicos recasados aceitem a sua realidade, não se excluam, nem se sintam excluídos da Igreja, muito menos do abraço do Pai que é amor, ternura e misericórdia.

Os recasados não podem comungar. Por vezes, as discussões centram-se neste aspeto. Podemos avançar noutros sentidos ou só Roma poderá um dia permitir um segundo casamento e o acesso à Comunhão?

Nesta Exortação, Bento XVI insiste na necessidade de uma ação pastoral adequada em relação aos divorciados recasados, dado que continuam a pertencer à Igreja, afirmando tratar-se de “um problema pastoral espinhoso e complexo, que vai corroendo progressivamente os ambientes católicos”. O problema é “espinhoso e complexo”, por isso não é só Roma e não é só a Comunhão que devem ser interpelados!

Os casais em segunda união têm um papel determinante. Essas pessoas não poderão participar na Comunhão, mas podem comungar espiritualmente e devem participar “até onde lhes forem possível” da vida na Igreja, como mencionou o Papa João Paulo II no documento da Reconciliação e da Eucaristia.

O segundo casamento poderá ser legitimado?

Não existem formas de legitimar a nova união na Igreja. O que existe é uma possível bênção ao casal, que não deve ser confundida ou mesmo parecer um casamento. Até porque o matrimónio é um sacramento como são batismo, crisma, eucaristia, confissão, unção dos enfermos e ordem, instituídos diretamente por Jesus Cristo. Através deles nós obtemos graças santificantes que apagam o pecado. A bênção (que no caso dos casais de segunda união só pode ser dada mediante autorização do bispo diocesano) não é um sacramento, é um sacramental. Isso significa que ela não concede a graça em si, mas conduz a ela.

Independente disso, o importante é que esses casais mantenham contacto com a Igreja. Como ressaltou o Papa João Paulo II: “Que estes homens e estas mulheres saibam que a Igreja os ama, não está longe deles e sofre pela sua situação. Os divorciados novamente casados são e permanecem seus membros, porque receberam o batismo e conservam a fé cristã”.

E os casais católicos têm a importante, e ímpar, tarefa de serem os únicos que, no seio da Igreja, podem acolher em igualdade de relações os casais em segunda união.