Em cima da linha Não é novidade para ninguém a greve dos professores. Também não é novidade para ninguém o ditatorial braço de ferro da Ministra. Por aí, diz-se que os professores são uns oportunistas, que aproveitam sempre os momentos mais complicados da vida escolar, que prejudicam gravemente os alunos. Muitos encarregados de educação, que nada ligam ao trajecto escolar dos seus filhos, que não põem os pés na escola ao longo do ano, aparecem agora a dizer que os professores são estes e aqueles. Ainda ontem ouvi dizer que os professores, genericamente, são uns malandros e uns privilegiados. Não pretendo aqui fazer uma apreciação sobre o trabalho e a missão do professor, nem sequer fazer qualquer juízo de valor sobre as razões ou a oportunidade da greve.
Quero pôr à consideração de quem me ler esta situação verdadeiramente insólita:
Os professores têm sido convocados diariamente para a escola; as aulas do Nocturno, as aulas de recuperação e outros trabalhos foram suspensos; tudo para que se pudesse garantir a realização dos exames e os alunos não saíssem prejudicados.
Na Escola onde eu trabalho, (Distrito de Aveiro), há 114 professores, dos quais a maior parte tem assinado o ponto todos os dias. Aconteceu que, no dia 22, às 14,30, lá estava a fila para a “bilheteira”: toda a gente a marcar o ponto, 114 professores. A escala de serviço para o exame estava feita. E, se quiser, pasme! Havia uma (1) aluna a fazer a prova. (Introdução à Economia – 12.º ano). Só uma. Única. Estavam ali mais de cem pessoas para garantir a realização do exame e, de acordo com a vontade da Srª Ministra, ali estavam obrigados todos os professores. Foi então que cheguei à conclusão de que, na verdade, os professores não fazem nada. Mais de cem pessoas, uma tarde inteira, sem fazer rigorosamente nada. Poderiam descontrair-se, dormir ou passar o tempo a olhar uns para os outros, em amenas conversas… Verdadeira maravilha de um país abastado e inteligente.
Dir-se-á que estou a contar uma anedota ou a acordar de um sonho. Mas não. É que esta manhã, dia 23, cá estão de novo todos os professores, e às 11,30 horas repete-se a situação. (9.º ano – Francês II). Um exame, uma (1) aluna e uma claque inteiramente pacífica de professores. Mas às 14,30 horas há nova corrida às “bilheteiras”, porque o cinema vai continuar.
Só faltou, para a anedota ser completa, que as alunas em causa tivessem decidido não se apresentar para fazer a dita prova.
