A guerra fria de Bento XVI

GUIACOMO GALEAZZI

Jornalista

A luta contra a fome é a nova Guerra Fria. O muro da desigualdade económica divide o mundo entre sul e norte como ontem as ideologias o dividiam em dois, entre Ocidente capitalista e Oriente comunista. No estádio de Cotonou [no Benim] transformado numa festa da fé muito colorida e ensurdecedora, Bento XVI assegura a África que a Igreja tornar-se-á a voz dos últimos.

O Papa, cada vez mais pastor do que teólogo, actualiza no terceiro milénio globalizado a promessa do recém-eleito Karol Wojtyla aos crentes do outro lado da Cortina de Ferro. Em Assis, há 33 anos, em plena contraposição dos blocos, João Paulo II rezou diante do túmulo de São Francisco e antecipou o projecto geopolítico do seu pontificado: “A «Igreja do Silêncio» não o será mais porque irá falar através da minha voz”.

Neste domingo [20 de Novembro], Joseph Ratzinger entrou em campo na primeira linha da miséria e, no quarto país mais pobre do mundo, reafirmou a opção preferencial pelos pobres, lançando uma teologia da libertação depurada dos excessos do marxismo e da aproximação à luta de classes. Uma solidariedade “global” capaz de romper “o bem-estar egoísta, o lucro fácil, o poder como objectivo último da vida humana”.

O último dia africano do pontífice começou com um interminável percurso do papamóvel num mar de fiéis. Uma onda ininterrupta de cânticos tradicionais e hinos litúrgicos. Mais de 50 mil pessoas entraram na missa concelebrada por 200 bispos de todo o continente negro. Centenas de milhares permaneceram do lado de fora do complexo desportivo para abraçá-lo festivamente com o assédio, enquanto o Papa entrega às conferências episcopais a Exortação Apostólica “O Serviço da África”: o manifesto da catolicidade do amanhã.

A cerimónia é uma Babel sem precedentes: o pontífice fala francês e latim, com leituras numa mistura jamais ouvida: bariba, inglês, português, mina, yaruba, dendi. E a bênção final em fon, a língua local. No meio da cerimónia, um raio finalmente fende as nuvens da manhã, e o manto de chumbo de humidade (95% e uma temperatura de 34 graus) e, quase numa explosão espontânea de “sincretismo”, um rugido da multidão presta homenagem às forças da natureza. Um rito do sol dentro da liturgia católica.

As pessoas vieram de toda a região, devastada pela pobreza e pela sida. De pé, com as mulas empoeiradas, ou em motorizadas movidas a gasolina vendida nos bairros em garrafas de Coca-Cola. De vilarejo em vilarejo, as irmãs de vestes vistosas, diferentes de acordo com a congregação, orientam a peregrinação.

Do palco, os discursos oficiais saúdam Joseph Ratzinger como “amigo e defensor da África”, que dedicou ao continente negro, como Papa, o Sínodo e, como cardeal, uma profecia: a Igreja está pronta para um Papa negro. Estimulando em chave cada vez mais social os seus discursos, o pontífice deplora “a opressão dos fracos” e exorta a “derrubar os muros da divisão” para “viver na justiça e na paz”.

Ao lado dos últimos, naquela que foi a costa dos escravos e hoje é o epicentro da fome, o Papa lança um alerta ao mundo inteiro: não se pode mais ignorar “o grito do pobre, do fraco, do marginalizado”. Tudo ao redor é uma festa multicolorida da fé, com milhares de crianças, mulheres em trajes tradicionais e homens com os braços levantados.

No continente negro perpassado por violentíssimas perseguições anticristãs, Joseph Ratzinger mostra como o baptizado sabe que “a sua decisão de seguir Cristo pode conduzi-lo a grandes sacrifícios, às vezes até mesmo ao da vida”. Adverte os cristãos que serão “julgados” pela forma como se comportarem para com os estrangeiros e todos aqueles que são postos de lado. Indica o modelo de Jesus, que “quis assumir o rosto daqueles que têm fome e sede, estão doentes ou prisioneiros, enfim, de todas as pessoas que sofrem”.

Ele infunde “coragem” aos pobres e às pessoas com sida, uma das pandemias africanas: “Tenham coragem, o Papa está perto de vocês”. A sida é “um problema não só ao nível sanitário e farmacêutico, mas também ético”. Os tratamentos devem ser gratuitos. A Igreja está com aqueles que mais precisam.

Publicado originalmente no diário italiano “La Stampa” de 21-11-2011. Tradução de Moisés Sbardelotto (www.ihu.unisinos.br).