“A Igreja e o Estado Novo na obra de D. António Ferreira Gomes”

Neste livro, o doutor Manuel de Pinho Ferreira procura mostrar como é que um chefe católico [Salazar] pôde expulsar um bispo da Igreja Católica

Na Biblioteca Municipal de Aveiro, na sexta-feira, foi apresentado o livro “A Igreja e o Estado Novo na obra de D. António Ferreira Gomes”, tese de doutoramento do padre Manuel de Pinho Ferreira, sacerdote da Diocese de Aveiro, docente universitário e antigo director do Correio do Vouga. Fez a apresentação da obra o doutor Carlos Azevedo, vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa (UCP), estando presentes D. António Marcelino, alguns amigos do autor e o vereador do Pelouro da Cultura, Manuel Ferreira Rodrigues, que fez as honras casa e se congratulou com a publicação deste “livro magnífico e bem escrito”, sobre a “figura ímpar que foi D. António Ferreira Gomes”.

O nosso bispo recordou a importância do trabalho do doutor Pinho Ferreira, sobre “uma figura grande da Igreja”, tendo afirmado que o Bispo do Porto muito o marcou na sua vida, desde que o conheceu em Portalegre. Este livro, que prefaciou, “faz luz sobre muita coisa, em especial sobre as relações entre a Igreja e o Estado”, não deixando de ser uma boa achega para a história.

Para Carlos Azevedo, esta tese de doutoramento em Direito Canónico do doutor Manuel de Pinho Ferreira, sobre a figura do Bispo do Porto, vai trazer ao meio cultural português não só um enorme contributo, “pelo manancial de informações inovadoras que apresenta”, mas também não deixará de suscitar debates e de fomentar discussões. Ao longo das primeiras 100 páginas da introdução, o autor traça “a primeira verdadeira biografia do Bispo do Porto”, afirmou o vice-reitor da UCP, acrescentando que até hoje havia apenas alguns “floreados”. E a partir de agora, tudo quan-to se disser sobre D. António Ferreira Gomes vai ser bebido na tese de Pinho Ferreira.

Sublinhou o rigor das informações e o esclarecimento integrado dos diferentes “mistérios” da vida do Bispo conseguidos pelo autor, os quais, “só por si, são mérito assinalável deste trabalho”. Lembrou que esta tese se apoiou em material guardado nos arquivos da Fundação SPES e da Torre do Tombo, no livro de Actas da Conferência Episcopal Portuguesa e nas obras do Bispo do Porto, o que permitiu mostrar, com clareza, as relações entre a Igreja e o Estado Novo, numa época de amadurecimento do regime, “já num clima concordatário” (estabelecido entre a Santa Sé e Portugal em 1940), apresentando duas concepções sobre a sociedade, a do Chefe de Governo [Salazar] e a do magistério episcopal de D. António Ferreira Gomes.

Nesta obra, pode verificar-se que as relações entre Estado e Igreja, embora de formal separação, “foram vividas pelo regime concordatário em estreita colaboração moral e sem o distanciamento requerido”. Talvez por isso, surgiu a demarcação pública de católicos, como Francisco Veloso, antigo colega de Salazar, e o padre Alves Correia, entre outros, que subscreveram as listas do MUD (Movimento de Unidade Democrática), em 1945, recordou Carlos Azevedo.

D. António Ferreira Gomes mostrou-se sempre atento ao surgimento de uma consciência social crítica, o que o levou a “desmascarar a política corporativa como infiel à Doutrina Social da Igreja (DSI)”, ao mesmo tempo que denunciou “o silenciamento do operariado ao lado da miséria do mundo rural”, frisou o apresentador do livro.

A célebre carta do Bispo do Porto, que mais não foi do que uma pró-memória para uma conversa com Salazar, em 1958, que nunca chegou a realizar-se e que deu origem ao exílio de D. António Ferreira Gomes, foi tema que mereceu uma atenção especial do doutor Pinho Ferreira. Nessa análise, apresenta-se uma visão autêntica da DSI, que está em desacordo com a visão “herética do Chefe do Governo”. E mais se procura mostrar como é que foi possível “um chefe católico expulsar um bispo da Igreja Católica”, sublinha o vice-reitor da UCP.

O autor, que afirmou ter partido para o estudo deste tema sem ideias preconcebidas, garantiu que consultou milhares de documentos e denunciou, como “disparatadas”, as ideias veiculadas por alguma comunicação social, quando apresenta D. António Ferreira Gomes co-mo um bispo que afrontou o regime. “D. António limitou-se a exercer o ministério episcopal”, não tendo escrito qualquer “obra de erudição”. Até mesmo nas Cartas ao Papa, publicadas já como Bispo Emérito do Porto, “ele acentua que não se trata de um livro de memórias, mas pura e simplesmente o testemunho de um bispo que pode ajudar a Igreja e, mais concretamente, os bispos que estavam a servir naquele momento”.