A Igreja na sociedade plural

A sociedade plural constitui um espaço novo e interpelante onde a Igreja se deve situar evangelicamente. Agora, há outras vozes, outros agentes, outras correntes de pensamento e formas de entender a vida e organizar a sociedade. E nem sempre estão em convergência naquilo que é fundamental. Em pontos decisivos, há mesmo concorrência de propostas e crispação de modos.

“O movimento laicista sente-se orgulhoso do que tem conseguido, ainda que à custa de muita luta e algum sangue, perante a hegemonia da Igreja no tempo da sagrada união” – afirma Garcia de Andoín, cristão militante e membro do grupo de contacto do Partido Socialista Operário Espanhol com a Igreja. Lembra, a propósito, a separação alcançada entre o Estado e as Igrejas, a conquista da liberdade religiosa, da escola pública, do casamento civil, do registo dos nascimentos, da secularização dos cemitérios e dos funerais, dos direitos do cidadão e da consciência, da convivência pública e da afirmação do Estado.

Conclui esta enumeração exemplificativa, garantindo que é importante descobrir os valores do laicismo, sem ingenuidades nem preconceitos, e assumir que a Igreja mantém ainda posições de que é preciso libertar-se ou de que será desalojada, pois “está em marcha uma intensificação dos esforços laicistas tendentes a consegui-lo. Para isso, constituiu-se a «Plataforma Laica» que intervém activamente em vários países ocidentais.

Estas declarações são feitas durante a «mesa redonda» sobre “confessionalidade, laicidade e laicismo: colaboração ou conflito?” e constituem, sem dúvida, um dos momentos mais interpelantes do XIV Curso de Formação de Doutrina Social da Igreja, realizado de 12 a 15 de Setembro, na Fundação Paulo VI, em Madrid.

Este curso tem como tema central: “A presença da Igreja numa sociedade plural” num contexto celebrativo dos 40 anos da publicação da Gaudium et Spes (documento do Vaticano II sobre a Igreja no mundo actual).

Os trabalhos abrem com a conferência de André Lacrampe, arcebispo de Besançon e presidente do Conselho de Solidariedade, órgão da Conferência dos Bispos de França. Intitula-se “A laicidade francesa e as religiões: um repto” e faz uma releitura da situação, a partir da Lei de 1905, que estabelece a separação das Igrejas e do Estado e fundamenta o regime da laicidade. (Algo parecido com a nossa Lei de 1911, que também ela precisa de ser lida nos novos contextos sócio-políticos emergentes).

“A separação foi um acontecimento doloroso e traumático, mas o princípio da laicidade, se for bem entendido, pertence à doutrina social da Igreja” – afirma o conferencista, recordando a carta que João Paulo II lhes havia enviado por ocasião do centenário da referida Lei. Analisa a situação e as disposições adoptadas, em vários âmbitos, designadamente no âmbito escolar, da segurança social, do campo fiscal e conclui dizendo que constituem um reconhecimento do lugar das religiões na vida social.

“Em que área, aprecia mais o movimento laicista a acção da Igreja?” – é pergunta que surge na assembleia, aquando da «mesa redonda». “É precisamente no campo social, onde a justiça e a solidariedade mais faltam, agravando a situação dos empobrecidos e espoliados” – responde Garcia de Andoín que, sem hesitar, acrescenta: “Mas onde mais se teme o papel da Igreja é na educação, seja em que espaço for. Forjar o cidadão pertence ao Estado e às suas organizações”.

A Igreja encontra-se perante um desafio de fidelidade crescente a Jesus Cristo e perante as reivindicações sérias de movimentos orga-nizados, que proclamam valores até há pouco “monopólio” das organizações religiosas. Este desafio vai-se agudizando e tende a constituir-se em provocação: Ou abandona voluntariamente por exigências de renovação ou será desalojada de posições ultrapassadas por pressão democrática.

“A Religião ocupa o centro da sociedade, antes da época moderna; agora está privatizada na periferia” – observa Mardones, sociólogo dedicado à investigação científica. Ilustra esta deslocação com exemplos expressivos: do monopólio de sentido que detinha, há-de conviver com o pluralismo de cosmovisões; do controle do pensamento, há-de aceitar a autonomia da razão; da definição da moral única, há-de reconhecer a autonomia pessoal e a ética cívica. E conclui, afirmando que este processo, com os seus inevitáveis exageros, ajuda a purificar a Religião e as suas inúmeras roupagens, lançando enormes provocações. Por isso preconiza a passagem de uma laicidade incompetente a uma laicidade inteligente, de uma reacção defensiva a uma proposta assertiva, de uma tentação de adaptação cómoda a um inconformismo crítico, que salvaguarde a identidade cristã e contribua para a humanização da sociedade.

A presença da Igreja expressa-se na sua forma institucional, no estilo de vida dos cristãos e no contributo original que estão chamados a dar na sociedade plural. Segundo o referido sociólogo, é urgente desenvolver a educação da sociabilidade humana, frente ao individualismo desgarrado; é indispensável intensificar a solidariedade e as suas redes de intervenção, frente à crescente globalização neoliberal e às suas vítimas; é necessário oferecer uma resistência activa contrastante, frente ao consumismo de objectos e de sensações; é premente praticar a tolerância, aceitando as pessoas e recusando os atentados aos valores fundamentais, face a um pluralismo indiscriminado.

A presença da Igreja na sociedade plural revela-se cada vez mais necessária e reveste formas novas e diversificadas, centradas em Jesus Cristo e no seu desejo constante de “revelar o homem ao próprio homem”. Intensificar e revigorar estas formas constitui, sem dúvida, um dos maiores desafios pastorais do nosso tempo.