“A presença da Igreja nas cadeias, a prevenção moral, é também curativa, é uma presença de esperança num mundo melhor, que o preso tem o direito a encontrar quando ultrapassar as grades e contemplar o sol da esperança”, disse o coordenador-geral da Pastoral Nacional dos Estabelecimentos Prisionais e responsável pelo Encontro que se realizou em Fátima.
Durante dois dias, cerca de uma centena de capelães e visitadores de Cadeias debruçaram-se sobre a problemática dos Estabelecimentos Prisionais, concluindo-se, na generalidade, que a presença da Igreja nas cadeias é imprescindível à formação, ou reformação do homem caído nas malhas da Justiça.
Para o Padre João Gonçalves, da Diocese de Aveiro, a prevenção moral é também curativa, e a presença da Igreja é uma presença de esperança, sublinhando, a propósito, que as nossas cadeias “estão muito voltadas para a pena.”
Para este sacerdote, que visita as cadeias há trinta anos “a cadeia não é, não deve ser uma escola de crime, mas de recuperação, de esperança para que encontre cá fora, quando sair, um mundo melhor para ele, para toda a sociedade em que está inserido”.
Para o Juiz Conselheiro Armando Leandro, um dos graves problemas das nossas cadeias é a sua superlotação, a toxicodependência e as doenças transmissíveis. Este jurista, que já passou por postos de muita responsabilidade no universo de drogas (foi com ele que se iniciou o Projecto Vida), fez uma longa dissecação dos direitos e deveres de cada cidadão, e, citando constantemente a Constituição, referiu que “esse documento não é um texto (só) para juristas, mas para juristas e cidadãos, um texto que todos deviam conhecer”, sublinhando o relevante papel da Igreja, do compromisso com o outro, de tolerância, de compreensão, de acolhimento, de ajuda, de amor.
O Director Geral dos Estabelecimentos Prisionais, Miranda Calha, que depois de três anos de intenso trabalho, e de mais de três décadas em contacto com o universo prisional, deixará este cargo, brevemente, segundo consta, historiou a longa caminhada das cadeias, desde as Misericórdias, passando pelo séc. XIX, até aos nossos dias, lamentando que ainda estejamos, como então, com os graves problemas de então, ou pior, desde “cadeias superlotadas, com celas de capacidade de um ou dois, com dez ou mais; com orçamento que, para tudo poder funcionar menos mal, não chega para meio ano, o que vai acontecer com o deste ano. Quando entrei, havia um défice de oito milhões de contos e encontramos mais de um dúzia de sistemas.”
Porém, o Director-Geral, que tem tido um bom relacionamento humano com as capelanias, julgando-as indispensáveis para um bom funcionamento no sistema prisional, deixou a todos uma palavra de esperança no trabalho que já se fez e que está para aparecer.
Neste Encontro Nacional falaram ainda Paula Vicente, do Centro de Formação Penitenciária, e Paula Guimarães, do Montepio Geral. O Pe Georgino Rocha, Prof. de Teologia Pastoral, apresentou um trabalho subordinado ao tema: “Fundamento Teológico-Pastoral da presença cristã nas prisões”.
Presidiu a este encontro D. José Alves, bispo de Portalegre e Castelo Branco, responsável episcopal pelo sector sócio-caritativo. Com o coordenador, traçou as linhas orientadoras de uma nova Pastoral nas Cadeias, que deve ser, como disse, “uma Pastoral de justiça e de liberdade”, pois “os presos estão na cadeia em nome da justiça e em nome dela foram privados da liberdade”. É esta dinâmica que “deve abrir horizontes à Igreja”.
